Uma Pessoal Nostalgia Revisitada e de Acerto de Contas

Por Fabricio Duque

 

“Yorimatã”, assistido na Semana dos Realizadores de 2014, apresenta-se muito mais como uma investida-apaixonada do estreante diretor Rafael Saar que um mero exemplo de experimentação cinematográfica, principalmente por abordar vida, obra, existência, passado e presente da dupla musical Luhli e Lucina (compositoras, cantoras, percussionistas, violonistas e violeiras) e também pelo minucioso trabalho das imagens de arquivo (em Super 8). Aqui, a narrativa de gênero biográfico (com videoclipes completos) aprofunda sem medos e ou pudores uma época de “ouro” criativo da música popular brasileira, com suas referências, interferências, conduções, limitações, censuras, drogas, amor-sexo livre (o “escândalo era o amor”) na comunidade “hippie” (como “as crianças que “sumiam três/quatro dias e voltavam em bando com outras – “sem autoridade burra”) e um elevado nível de união solidária. Este filme é catártico, sinestésico, intimista, nostálgico, contemplativo, desafiador, datado, de apresentação em transe (pela conexão incondicional à natureza – na floresta) e acima de tudo, um documento (antigo) antropológico de se preservar a história e perpetuar a lembrança-memória, tudo pela presença da câmera livre, respeitosa e com atmosfera caseira. Aqui, conta-se (narração descritiva-coloquial-cúmplice-espontânea – “fiquei felizinha”) sobre a família, começo (a “garagem musical”), desenvolvimento (as primeiras músicas no rádio), conflitos, dificuldades, sucessos e reviravoltas pela estética classicista do modelo entrevista e contagem dos “causos”, da “música, a maior companhia”, e da liberdade sem tabus, sem “definir nada”, “só de ser”. Elas surgiram no VII Festival Internacional da Canção, em 1972, na Rede Globo, com a música “Flor lilás” – arranjos de Zé Rodrix. Com mais de 800 músicas compostas em parceria, quem mais gravou a dupla foi Ney Matogrosso (amigo de longa data e que também integra o “elenco” deste filme), além das Frenéticas, Nana Caymmi, Tetê e Alzira Espíndolla, Joyce, Rolando Boldrim e Wanderléa. Nos anos 70, Luli e Lucina foram morar em um sítio em Mangaratiba – litoral do Rio. Lá viveram o sonho da vida comunitária, e ao lado do fotógrafo Luiz Fernando Borges da Fonseca criaram um estilo novo e límpido de qualidade literária única, mesclando “todas” as “raízes brasileiras”, debruçando-se sobre o fazer manual dos instrumentos africanos, sobra a tradição da umbanda, sons de taças e “energia vertical”. “Todo músico é meio mágico, porque mexe com coisas invisíveis”, diz-se. É um filme família, integrando espiritismo, espiritualidade e “dinâmica do caboclo”. “Regras existem para serem quebradas graciosamente”, poetiza-se com tambor e plateia com sensação de banho de cachoeira, entre a “nata ancestral da música” (Beth Carvalho, Elis Regina, Nara Leão – grupo manifestando “samba de protesto”). “Eram músicas que falavam no feminino em 1968, por exemplo, Meu Homem”, lembra a cantora Joyce. O documentário passa pela história musical, fílmica e política do Brasil. A câmera, como espectador, observa e interage. “Era uma alquimia”, diz-se por imagens animadas e (ecto) plasmáticas, por tempo “imperceptível” de “coisas etéreas”, de microcosmos existencial, por passagens com música ibero-ciganas. A nostalgia é vívida, como uma máquina do tempo de “emoção sincera” por rememorar sonhos que “azedaram”, retorno ao “sítio” e seu “cotidiano criativo” (“Nos impregnamos de nós mesmos”; “Cruzar os braços também é política” – nesta é quase impossível não referenciar a “Ensaio Sobre a Lucidez”, de José Saramago; e “Nós temos música para todo mundo”). Uma experimentação transcendental de estilos, parcerias, épocas, a “força de uma verdade”. O diretor disse que o que o estimulou a realizar o documentário foi a “potência delas” (“a vida é feita de escolhas”). Sim, Luhli e Lucina souberam aproveitar cada momento de suas existências. Sim, “Yorimatã” é o resultado desta “viagem” ultra mega interessante pelo universo político e cultural brasileiro. Talvez o único “impedindo” deste longa-metragem seja sua duração e sua repetição temática, ou talvez não, se olharmos por um outro ponto de vista, a da admiração máxima de seu diretor, avistaremos a liberdade plena, livre, de dar “asas” às inúmeras histórias bem à moda do livro “Mil e Uma Noites”. A dupla acabou em 1998. Luhli, em carreira solo, com seu show “O Ney e eu”, tendo o repertório de suas composições. Lucina lançou em 2009 o álbum “+ do que parece”, que traz parcerias parte de quase uma centena de composições inéditas com Zélia Duncan. Recomendado.

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