Uma mistura pessoal de ingenuidade latente e pretensão individualista

Por Fabricio Duque

 

“Meu Amigo Hindu” apresenta-se como o mais recente filme do diretor argentino-brasileiro (de ascendência judaico-ucraniana) Hector Babenco (de “Pixote, A Lei do Mais Fraco”, “O Beijo da Mulher Aranha”, “Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia”, “Ironweed”, “O Passado”, “Carandiru”) e corrobora sua característica marcante: a autoralidade, cuja narrativa é construída com imponência-arrogância de experimentação natural-ingênua-individual-egocêntrica (“Você só precisa de você”). O longa-metragem representa uma autobiografia (“uma história que aconteceu comigo e eu conto da melhor forma”, diz), pois aborda o câncer linfático que teve nos anos noventa, interpretado pelo alter-ego-ator William Dafoe (que seu talento indiscutível faz com que “salve” o resultado de um completo desastre, devido talvez por ser falado em inglês por atores brasileiros – com exceção é claro de Selton Mello, que definitivamente “rouba” a cena quando aparece). O protagonista, um diretor de cinema, quando confrontado pela Morte (com direito a negociações e jogos de xadrez, referência esta clássica e icônica a “Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman), expressa apenas um desejo: realizar mais um filme. No desenvolvimento, entendemos o título que vem da amizade com um garoto indiano que conhece nos EUA, também passando por um tratamento, e juntos encontram uma saída lúdica para enfrentar a doença. No processo de cura, outros filmes são inferidos: “As Invasões Bárbaras”, de Denys Arcand; “Festa de Família”, de Thomas Vinterberg; “8 1/2”, de Federico Fellini; “O Gordo e o Magro”, “A Viagem a Lua”, e a cena final explícita de “Cantando na Chuva”, com dança-epifania-catarse (cena hipnótica-apaixonante) da atriz Bárbara Paz, casada com o diretor “real”, Babenco. Como foi dito, ter brasileiros (um elenco gigantesco de atores globais-famosos e amigos) encenando em inglês (de um curso nível básico) causa “desconforto” em quem assiste, e assim reverbera o máximo anti-naturalismo de um roteiro dramático, artificial-superficial, sem conflitos (“flores” o tempo todo), forçado, teatral, caseiro, de efeito, enaltecido pela música sentimental e pelos gatilhos comuns “esperados” de quem está doente (com surtos, existencialismo e filosofia realista). Mas ao “bagunçar” a ordem e se comportar como um “Pasolini-Bernardo Bertolucci”, consegue a revolução-surreal-metamorfose sem tabus (como exemplo, uma mulher velha e pelada e perseguidora em um submundo altamente sexual e instintivo) da própria liberdade, com personagens projetados-sonhados-imaginados-fantasiosos, uma “estranha felação”, sacadas-críticas-afiadas sobre o universo do showbiz (“Casal da novela, eles se acham” e ou “um longo comercial de maionese” para definir o próprio filme), os procedimentos do tratamento (sua máquina e luzes – uma poesia concretista da imagem) e a morte perspicaz-humanizada-personificada que vira “amigo” do personagem. “Meu Amigo Hindu” é sem dúvidas um filme curioso, mais para ser degustado que detalhadamente analisado, que faz o espectador equilibrar os altos e baixos, e entender as falhas e fragilidades como liberdades pessoais-apaixonadas de auto-exposição de um ser humano que tem prazer incondicional de tratar de seu tema favorito: ele mesmo. Talvez Hector Babenco não se preocupa em imprimir totalmente “seu” conceito, tampouco buscando a aceitação e simpatia de seu público. Talvez não. Talvez seja uma mistura potencializada de ingenuidade latente e pretensão pululada. Talvez a “morte” tenha o persuadido a ser mais individualista. foi o filme de abertura da Mostra Internacional de São Paulo 2015. Concluindo, é um filme de inúmeros “talvez”. “É ele e, ao mesmo tempo, não é; é um filme”, finaliza William Dafoe.

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