O Conceito Embate entre a moralidade-ética e a liberdade de ser como já se é

Por Fabricio Duque
Direto do Festival de Berlim
15 de Fevereiro de 2016

 

O novo “bebê” da diretora brasileira Anna Muylaert (de “Que Horas Ela Volta?”, “É Proibido Fumar”, “Durval Discos”), “Mãe Só Há Uma”, da mostra Panorama do Festival de Berlim 2016, “nasceu” com sua exibição no Cinema Zoo Palast em sessão lotada. Aqui, manteve-se sua característica técnica-narrativa típica, que é imergir o espectador no limite tênue entre o amadorismo proposital da espontaneidade (quase documental das micro-ações) e o cotidiano-acaso de uma encenação mais teatralizada, corroborando (mesmo que sem seu objetivo inicial) uma estrutura de cinema romeno, talvez por focar nos princípios morais da sociedade, romper paradigmas e desencadear um “sufocamento” sinestésico, com absoluta maestria e um controle preciso de tempo-espaço, em suas hipócritas aceitações sobre o diferença-divergência do comportamento humano-indivíduo. O espectador é confrontado às ideias enraizadas, perpetuadas, alimentadas e machistas de um povo que repete de forma alienada e costumeira uma maioria e que vive mais preocupado comas atitudes do outro que o próprio ser-querer individual. “Mãe Só Há Uma” busca uma “terapia de choque” com o intuito de acordar dormências preconceituosas, utilizando-se do subterfúgio radical da liberdade libertária de uma festa, em que um jovem experimenta as possibilidades da sexualidade (ele beija menina, mas também usa calcinha e pinta as unhas) para desestruturar o próprio conceito transgênero. O protagonista (o ator Naomi Nero, que é sobrinho do ator Alexandre Nero, está precisamente irretocável) abrange opções e “luta” diariamente pelo direito de poder criar uma nova vertente: a de poder “bagunçar”, “confundir” e “mesclar” sub-características existenciais de diversificado comportamento, “saindo” da caixa já “fechada” e estimulando novos questionamentos e confrontos normativos e sistemáticos. É um adolescente comum. Que vai à aula na escola, que ouve poemas de Carlos Drummond de Andrade, que dorme por cansaço, que reverbera uma pretensão mimada de auto-defesa, que sofre Bullying (“Emo”, “Gótico” – mas não se dá por vencido, desferindo nas atitudes uma forte e firme personalidade protetora). A câmera próxima acompanhada faz com o espectador participe do momento, esteja junto e, de forma cúmplice, desperte incômodos, como a androgenia (misturando características femininas e masculinas em um único ser, ou uma forma de descrever algo que não é nem masculino e nem feminino). “Mãe Só Há Uma” ambienta detalhes para construir o caminho à segunda parte, muito mais aprofundada, mais explícita e mais questionadora, que é abordar a essência intrínseca do lar e do conceito de família (“Que é quem cria, não apenas do sangue”). O personagem principal, Pierre, descobre que sua família não é biológica quando uma denúncia anônima faz a polícia prender sua “mãe” (a atriz, do Teatro da Vertigem, Dani Nefussi – que parece e muito com Karine Teles – esta que integrou o elenco de “Que Horas Ela Volta?”). O que ele conhecia é desfeito e desconstruído. E ao ser apresentado a seus parentes verdadeiros, que o conhecem como Felipe, a nova realidade faz com que este ser em construção moral precise enfrentar sua real identidade. O longa-metragem é muito mais sobre a influência do meio na criação-crescimento dos jovens que só sobre uma liberdade sexual à moda de David Bowie com elementos de “Califórnia”, de Marina Person. O foco principal é o amor incondicional, que transcende as barreiras legais e que mostra que talvez um erro-crime seja mais proveitoso e aceitável que a estrutura politicamente correta da moral e dos bons costumes (criticado à metalinguagem pela câmera lenta, dramática, ora subjetiva). A trama do “roubo”, que durou dezessete anos, prefere o tema à estética, e pode parecer forçado, de interpretação acelerada, de mudança rápida das reviravoltas de aceitação, sim, pode, mas é um retrato de uma história real “livremente inspirado” na vida de Pedrinho, um garoto sequestrado ainda na maternidade por uma mulher que o criou como filho. O adolescente ficcional em questão peleja constantemente suas convicções em não gostar de futebol e ou por usar vestidos em público, causando desconfortáveis e constrangedores momentos sociais. Os novos pais (os atores Helena Albergaria e Matheus Nachtergaele) “desculpam-se” pelos hipócritas argumentos de que o filho é assim porque está em uma banda de rock. “Mãe Só Há Uma” é sobre a relação entre mães passionais e filhos rebeldes (naturalidade da idade) e sobre a aceitação incondicional. Se uma família aprendeu a aceitar a normalidade, a outra choca-se pela radical novidade. “Será que o que passou não é para ficar esquecido?”, diz-se com o eterno embate entre moralidade-ética e liberdade de ser como é. A pressão fica mais intensa. A obrigação também. E um recomeço do zero é necessário à nova vida. Concluindo, é, mãe mesmo só há uma. Recomendado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados