Por Fabricio Duque

 

É possível utilizar a mesma máxima (“de que até o filme mais ruim é bom demais”) empregada às produções cinematográficas de Woody Allen nas sensações cinéfilas-clássicas das obras de Quentin Tarantino, que há muito já imprimiu um estilo, quiça um gênero, definidor. É apenas o espectador olhar para reconhecer o mestre. Em seu mais recente filme, “Os Oito Odiados”, um faroeste raiz ultra mega violento (uma de suas características marcantes), corrobora sua narrativa de conectar detalhes em monólogos e ou conversas (quando um dos personagens permite) verborrágicos, como é o caso da quantidade de odiados. São oito. Porque é seu oitavo longa-metragem. Esse é só um de inúmeras referências (informações sublimares) à clássicos do cinema. Tarantino tem o controle total de seu ofício e inicia ambientando o lugar (por um Cristo de madeira na neve) com a trilha-sonora catártica (de memória afetiva) de Ennio Morricone (que por sinal venceu o Globo de Ouro 2016 – o primeiro de sua carreira icônica). A trama simples sem ser simplista, com créditos à moda de abertura dos anos setenta, “ganha” importância em seu desenvolvimento (que é basicamente o percurso (“devagar como melado”) de um lugar a outro (Red Rock), com suas reviravoltas e acasos passionais gerados por seus protagonistas. É contada em capítulos (outra característica de seu trabalho) usa e abusa de informações subliminares (ao número oito por exemplo) e cria longos preâmbulos-conversas-sociais (a calma antes da violência, tendo sua câmera quase em lentidão-epifania. E assim, aos poucos, o discurso tarantinesco mostra “sua cara”, reverberando-se politicamente incorretos (“se considerasse animais como amigos”), jogos de poder egocêntricos, e polemizando com sacadas racistas (como um branco “imitando” o sotaque de um negro) a fim de criticar o próprio preconceito enraizado da época. Nós, espectadores, não sabemos o que vem a seguir. Esperamos como ovelhas e cavalos manipulados. Ele brinca descaradamente e sem pudores conosco e aceitamos cada maestria em jogadas psicológicas. A “carta de Abraham Lincoln a um negro”, o “piquenique dos caçadores de recompensas”, o “encontro de carrascos”, “pelos Yankees é um país livre”, tudo soa “sacana”, “leniente”, “contra os mexicanos”, de zoação escrachada e incrivelmente inteligente-espontâneo. É o eterno embate entre o norte e o sul, entre o negro e o “inferno” do branco, e sobre o direito de se gabar. Entre delírios realistas, planos e contra-planos, cantorias, apresenta-se um segredo, soluciona o mistério e retorna ao tempo em que tudo se iniciou, explicando tim-tim por tim-tim explodindo sadismo, crueldade, violência visceral e uma “pseudo” redenção a uma liberdade incomum. “Os Oito Odiados” estimulou também o “ódio” social-comunitário, acusando o Oscar por não ter indicado a excelente interpretação de Samuel L. Jackson. E ainda Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, entre outros impecáveis. Em entrevista recente a Peter Travers, do Popcorn da ABC News, o ator não se incomodou com essa questão, e por mais que o entrevistado “atiçasse”, o “negro” manteve a educação formal. Talvez, a sensibilidade das pessoas sobre vitimados esteja exacerbada e com perda do senso de humor. Talvez seja apenas uma maneira de mascarar as próprias hipocrisias. Talvez sim. Talvez não. Mas o que se sabe é que não há defeitos no filme em questão aqui. E se o cinéfilo-leitor-espectador assistir em 70mm terá uma experiência tão única, que a nostalgia do cinema estará instalada e levará às lágrimas até os mais brutos. Que chorarão emocionados! E Quentin Tarantino continuará no pedestal de deus da sétima arte. A sinopse nos resume que durante uma nevasca, o carrasco John Ruth (Kurt Russell) está transportando uma prisioneira, a famosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que ele espera trocar por grande quantia de dinheiro. No caminho, os viajantes aceitam transportar o caçador de recompensas Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que está de olho em outro tesouro, e o xerife Chris Mannix (Walton Goggins), prestes a ser empossado em sua cidade. Como as condições climáticas pioram, eles buscam abrigo no Armazém da Minnie, onde quatro outros desconhecidos estão abrigados. Aos poucos, os oito viajantes no local começam a descobrir os segredos sangrentos uns dos outros, levando a um inevitável confronto entre eles. Altamente recomendado.

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