Por Fabricio Duque
Direto do Festival de Berlim
14 de Fevereiro de 2016

 

“24 Wochen – 24 Semanas”, que integra a competição oficial do Festival de Berlim 2016, é dirigido pela alemã Anne Zohra Berrached (de “Two Mothers”), e busca uma narrativa mais realista-perspicaz, mitigando exacerbar a sensibilidade do politicamente correto ao tratar de um tema polêmico como o aborto permitido em caso de “alterações” no feto (incluindo os “Downie”, termo “fofinho” para os portadores da Síndrome de Down (“Ou você prefere que eu use ‘mongo’?”, diz o pai, com espontâneo e natural humor “negro”). A história foca na vida de uma família, em que a mulher é uma humorista de “Stand-Up Comedy” e seu “marido” namorado, o produtor. Eles tem uma filha “normal” e “facista”. Aqui, inicia-se com micro-ações epifania, em câmera próxima, em edição videoclipe (uma das tendências “repetidas quase como padrão” daqui do Berlinale deste ano) e música cósmica-psicodélica ao estilo do grupo islandês Sigur Rós, que faz um “lounge existencialista”. O roteiro analisa a questão moral, ética e com um pequeno gatilho comum religioso (deslize este perdoável), criando a liberdade racional-sarcástica do agir, pensar, escolher a melhor opção e realizar sem culpas, com o “dever social” (o deles) cumprido. A fotografia tem sua melhor metáfora. A tonalidade clara, esbranquiçada e de ectoplasma indica uma irrealidade, como se vivessem em um mundo sem imposições preconceituosas (por exemplo, o momento constrangedor do almoço de família e ou quando a babá “cai fora”) e sim o que conta é a única individualidade (como a mãe que fuma maconha). Quando as complicações da gravidez “assaltam” de vez o casal, eles “derrapam” nas “vezes que a natureza faz isso” e a decisão final, é, logicamente, da mãe, responsável por carregar e sentir a conexão siamesa. O longa-metragem constrói o questionamento de que o melhor a se fazer é “matar um feto” para não fazê-lo sofrer das dores literais-físicas do mundo (como uma operação de coração com uma semana de vida). Talvez eles nunca voltem totalmente ao que eram antes. Talvez o final simbolize a redenção das marteladas. Talvez a depressão seja a resposta à liberdade do esquecimento. Talvez eles precisem passar pela provação de experienciar o mesmo sofrimento da recém-nascido. Definitivamente, a vida é um talvez e um jogo de xadrez diário. Um filme que passeia na corda bamba, tendo o realismo racional de um lado e a inevitável sentimentalidade do outro. É a eterna “escolha de Sofia”. Um bom filme. Recomendado.

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