Por Fabricio Duque

 

A característica principal das obras fílmicas do diretor húngaro Bela Tarr (de “A Harmonia Werckmeister”, “O Homem de Londres”, “Ninho de Família”, “Satantango” – este com sete horas de duração) é experimentar a estética visual, por planos longos, contemplativos, que estendem a percepção coloquial-encenada das micro-ações cotidianas (completamente retratadas – mudar a roupa, sentar e esperar cozinhar as batatas), inserindo o espectador no tempo ocioso da narrativa atemporal. Suas personagens participam como coadjuvantes, tendo a própria vida e a existência como elemento personificado e exponencial. Em seu mais recente filme, “O Cavalo de Turim”, que foi realizado em apenas trinta tomadas, reitera-se a estrutura clássica da fotografia (como um fotograma-sépia gasto, de filme antigo), e quando complementado pela música catártica (uma sinfonia fúnebre de efeito), nós somos imbuídos de silêncios naturalistas (de poucos diálogos – econômicos – quase ordens). Aqui, a filosofia realista encontra a submissão versus Deus versus Nietzsche. A história é contada por repetições teatralizadas em diversos tempos (como a única opção da batata quente e de comer com a mão). A simplicidade dos atos das rotinas tradicionais ganha complexidade de necropsia mental. Retarda-se a revolta e a resignação é alimentada. É lento sem ser vagaroso. Os dias passam. Pai autoritário e filho são traduzidos à moda de um teatro grego. A ventania acentua-se. Uma égua quase não se mexe. O frio descortina-se, gerando um brilho acinzentado. “O Cavalo de Turim” é uma metáfora sobre a corrupção do mundo, sobre a espera de algo acontecer e sobre a destruição, contada pela criação dos seis dias e o descanso do último. O discurso-monólogo verborrágico e crítico à vitimização do segundo dia, que “não aguenta mais a humanidade inocente”, que “julga bastardos, pobres, fedorentos, ciganos, loucos, alienados”. Uma carruagem chega. A catequização. A depressão. O acordo. A escuridão. E no sexto dia, a desistência. A sinopse. O velho fazendeiro Ohlsdorfer (Janos Derzsi) e sua filha (Erika Bok) dividem um cotidiano dominado pela monotonia. A realidade dos dois é observada pela vista da janela e as mudanças são raras. Enquanto isso, o cavalo da família se recusa a comer e a andar. O filme é uma recriação do que teria ocorrido com o animal após ter sido salvo da tortura pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche durante uma viagem a Turim, na Itália. Concluindo, o filme (“sobre o peso da existência humana”) é uma aula de cinema, mitigado de ilusões e gatilhos comuns, sendo apresentado direto e cru pelo elemento poético-visual. Um diretor que reverenciado por Gus van Sant (““um dos poucos cineastas genuinamente visionários”) e pelo nosso brasileiro Walter Carvalho. Vencedor do prêmio FIPRESCI e do Grande Júri no Festival de Berlim 2011. Imperdível. Recomendado.

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