Por Fabricio Duque

 

Um dos objetivos característicos do gênero documentário é fornecer a quem assiste informações sobre um determinado tema. Parece lógico, mas não é, visto a tendência atual de criar hibridismo ficcionais nesta realidade. Em “Crônica da Demolição”, que está em competição ao Troféu Redentor no Festival do Rio 2015, o diretor, estreante em um longa-metragem, Eduardo Ades (do excelente curta-metragem “A Dama do Estácio” com Fernanda Montenegro), imprime uma estrutura clássica nostálgica-histórica ao “perpetuar” a demolição do “mostrengo” Palácio Monroe, na Cinelândia do Rio de Janeiro. O “palco-sede” do Senado Federal, lugar de ideias políticas da época, tornou-se um “indesejável” monumento, que “fugia” da arquitetura vanguardista de Lúcio Costa (“fã” de Corbusier). Aqui, a narrativa segue acertadamente mesclando inúmeras e raras imagens de arquivo e entrevistas com arquitetos, militares, ”afetados” (como o pecuarista que “arrematou” as obras de arte que estavam no Palácio – inclusive os leões; o ex-prefeito Cesar Maia) e envolvidos no caso (como Humberto Barreto, assessor do presidente Geisel e Maria Elisa Carrazzoni, conselheira do SPHAN), com a música futurista-existencialista-lisérgica de Philip Glass. O espectador “viaja” no tempo e é participado aos possíveis motivos desta “retirada”. Hoje, no lugar, está o estacionamento subterrâneo, com um chafariz que nunca é ligado para não “estimular” a população que vive nas ruas. O filme busca entender, e acima de tudo, compreender, de forma adjetivada e definidora, o porquê de tanta “revolta”, permitindo um inevitável saudosismo despretensioso. São estudos, análises, argumentos de uma época “progressista” que não volta mais. O crescimento desordenado é iminente e incontrolável. É exatamente por isso que a câmera, em tom de crônica-pessoal não didática, tem seu poder ao eternizar imagens que servirão para documentar nosso passado (como por exemplo a inauguração do Metrô da estação dos “cinemas” e o ápice que é a própria “destruição” de um monumento que lá trás só servia para “impedir” o fluxo visual) e nossos palácios (em poderosas “brigas” políticas e econômicas). “Crônica da Demolição” vai e volta, remonta o passado e retrata o presente, criando paralelos de “união” de peças “perdidas”, em fantásticas tomadas áreas.  É um incrível documentário, com uma edição que “chapa” e aprisiona o espectador pelo “passeio” afiado dos planos apresentados. Trocando em miúdos, uma “delícia” de se degustar, “gostoso” de se informar e obrigatório de se assistir (em tela grande, lógico). Recomendado. Foi selecionado para dois eventos de work-in-progress na América Latina – DocuLab Guadalajara (México) e Sanfic (Chile) – além de ter sido finalista do Prêmio Finaliza do Bolívia Lab.

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