Um “mundo cão” que quer ser pitbull, mas que é apenas um vira-lata

Por Fabricio Duque

 

Um dos filmes mais aguardados do Festival do Rio 2015 é “Mundo Cão”, de Marcos Jorge, por ter realizado sua obra-prima cinematográfica “Estômago” (que “arrebatou” trinta e nove prêmios). Inevitavelmente, a expectativa se fez grande. Lógico. Somos seres humanos convivendo com este “mundo cão” a nossa volta. Mas infelizmente o longa-metragem em questão aqui, que concorre ao Troféu Redentor de Melhor Filme de Ficção, apresenta um resultado aquém do esperado. Ao traçar estas linhas analíticas, é necessário dividir “Mundo Cão” por blocos e núcleos. Nem tudo é desastroso, na verdade a narrativa equilibra-se entre o “oito” e o “oitenta”. De um lado, positivo, temos as interpretações arrebatadoras e excelentes dos atores Lázaro Ramos e Adriana Esteves, que de tão entregues, nós espectadores sentimos “raiva cúmplice” do primeiro e emoção não sentimentalista da segunda. O que realmente incomoda é o ligamento dos pontos narrativos. A música excessivamente melodramática “sentimentalóide” e o artifício de efeito visual, a fim de explicitar passagens de tempo não muito distantes (quase uma estrutura de histórias em quadrinhos da Marvel) destoam completamente o ritmo cadenciado, reverberando altos e baixos dentro de cada um dos núcleos, que insere gatilhos comuns de tentativas frustradas de comicidade, e assim desencadeia uma sucessão de clichês instantâneos que minam o contexto totalitário. Por exemplo, temos a cena brilhante de naturalismo espontâneo entre Adriana e Babu Santana quando estão fumando próximo ao poço a ser consertado. Ponto alto. E aí, não muito tempo depois, temos uma cena “crônica” de clichê “crônico”, que é a mesma Adriana segurando a bola do filho desaparecido com uma trilha sonora que beira o patético. Outro momento, o choro de Adriana perante o delegado. Genial, sutil, comovente e mitigado de toda e qualquer manipulação emocional. Ou o realismo dos diálogos de Lázaro, sempre afiados e nunca forçados. E quase paralelamente ser apresentado a interpretação solitária desengonçada e anti-naturalista de Babu Santana. Não que ele seja um ator ruim, mas há “preguiça” de se terminar os planos. Por isso a instabilidade. De um lado a sutileza espontânea, do outro a exacerbação do melodrama e da elipse solta, como em um momento a ação “pegando fogo” e em outro, Babu dormindo e roncando. A sinopse nos conta que em São Paulo, no ano de 2007, Santana é um laçador de cães do Departamento de Controle de Zoonoses do município. Baterista amador, simpático e bonachão, ele sempre manteve a violência longe da porta de sua casa. Até o dia em que, numa escola, ele captura um enorme cachorro. Decorridos três dias, apresenta-se o dono do cão, um homem de apelido Nenê. Mas, seguindo a lei, o animal foi sacrificado. Por um mal-entendido, Nenê se indispõe justamente com Santana, considerando-o responsável pela morte do animal. A partir desse encontro, a vida de todos os envolvidos nessa história mudará para sempre Concluindo, um filme que tenta traduzir um “mundo cão” pitbull com altos e baixos, mas que encontra apenas um vira-lata. Contudo, o longa-metragem vale cada centavo pelas interpretações monstruosas dos veteranos Lázaro e Adriana.

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