A tempestade de ideias da arte

Por Fabricio Duque


É inevitável ao traçar linhas analíticas sobre o livro autobiográfico, “Vida Minha”, do dramaturgo Domingos Oliveira, a inclusão subjetiva daquele que aqui escreve, com detalhes pessoais referenciais e individualistas a fim de “respeitar” a essência de seu autor, que se diz “sério, mas faz um enorme esforço para parecer que não é”. Domingos escreve como dramaturgo, com suas hiperbólicas saudosistas, passionais, viscerais, apaixonadas e carentes observações sobre a vida e o mundo ao seu redor, “recebendo” o título de “Woody Allen brasileiro”, que o mesclo com um “suavizado”, quase com oportunismo egocêntrico hipócrita, universo à moda Charles Bukowski. A leitura aconteceu de “uma tacada só”, porque Domingos utiliza-se de seu tom novelesco “autoral” para “prender” a atenção do leitor-espectador pela curiosidade latente e sincera verdade “editada”, que assume que “a culpa é sempre do autor”, que acredita que “talvez o amor não seja para entender e sim para decorar”, que “endeusa” Dostoiévski, por causa de seus personagens, que “possuem uma certeza desmedida em meio à grande insegurança”, que “acha que dublagem é um recurso técnico poderoso”, que “sangra sem perder o ritmo” e que “simpatiza muito com a ideia de que o amor, quando é amor, é incondicional, ou não é amor”. Não há como negar. Domingos Oliveira é um gênio, que se “apropria” das próprias idiossincrasias para “criar” um grande espetáculo “realista” e sentimental da própria vida privada. Lê-lo é adentrá-lo, filosoficamente, intelectualmente, sexualmente em sua mente que não “mente”, mas que “deturpa” com emoções ingênuas e inocentes as próprias lembranças e memórias. Descobri logo no início que a melhor trilha sonora incidental é Richard Strauss e seu “Also Sprach Zarathustra”, por causa da aura epopeica e de dramaticidade “rasgada” (para quem não lembra é o tema de “2001 – Uma Odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick, um cineasta que “almeja a cristalinidade”).

Ele fala sobre o “medo de Fassbinder, porque todo artista gostaria de se embebedar na sua arte até morrer de overdose”; sobre “Welles que respirou as profundidades do campo”; sobre “Fellini, que filmou o mistério e nunca fez som direto”; “Chaplin, que foi o que mais amou, e que filma a sensualidade, o humor do amor, a juventude do amor”, “Bergman que mostrou que nem só de imagens vive o cinema, elevando a palavra ao nível cinematográfico – fez com que víssemos palavras”; “Woody Allen, que é o pensador do mundo moderno, com a fusão inspirada no riso e na lágrima, o filho direto de Molière”. “O que Allen tem que os outros não têm?”, “Uma capacidade espantosa de reduzir as cenas ao mínimo necessário para contar a história”; e sobre o “milagre de Eisenstein, que duas imagens juntas criam um terceiro significado”. Há drogas, amores, desilusões, dores, depressões, perdas, doenças, medos, arrogâncias, sortes e tudo que está presente na vida de todo e qualquer individuo que vive em sociedade.


A seguir, trechos de seu livro:

“Estamos mortos e nos matamos para não morrer”.

“O cinema americano usa como estética o lugar-comum”, “Exacerba o lugar-comum, tornando-o raro”, “O
lugar-comum é o passaporte industrial que possibilita a existência de um cinema
tão caro”.

“Escrever é uma atitude perigosamente consequente”.

“A arte é uma fome, o melhor antidepressivo, importantíssima na prevenção do enlouquecimento geral, a amiga da utopia, o arauto do futuro, a mãe da ética”, “O tempo da arte é menor que o da realidade”.

“A maioria dos livros não termina, desiste”.

“Um escritor tem que amar a obsessão”.

“Escrever é um compromisso”, “É botar no mundo algo que antes não estava lá”, “Portanto, humildemente, é jogar o jogo de Deus”.

“A felicidade é uma ideia que os homens inventaram para enlouquecer”.

“Para quem começa, às vezes a inocência compete com a histeria”.

Sobre a filha pequena, “uma espécie de adoração do querer aprender com ela as lições da sinceridade de ser”.

“Um artista inspirado, um pianista, que sabia, como Chopin ou Debussy, preencher todos os espaços com seus tons”.

“Anos 60, a expansão da consciência”.

“O cinema resgata a perdida inocência, dos desenhos animados”, “Diante da grande tela, somos de novo crianças ouvindo histórias dos adultos queridos”, “O Cinema esqueceu o inesquível”, “O cinema anda hesitando em achar seu tempo”, “A tendência a filmes longos revela também uma espécie de gula, de superoferta – para que não falte, é preciso oferecer demais”, “É o cinema aceitando o tempo do documentário como o do cinema, fazendo curvar a dramaturgia diante da verdade eloquente que somente o documentário capta”.

“Um homem tem de gostar de si mesmo para poder gostar dos outros”.

“Feminices é um legitimo BOAA (Baixo Orçamento e Alto-Astral), e livre como a câmera de Dib Lufti”.

“O maior de todos os filmes, “8 ½” foi feito por Federico Fellini, que nunca filmou a realidade, e sim o mistério que cerca a realidade, o melhor jamais realizado”, “Um cineasta faz a vida inteira o mesmo filme”, “E se Dostoiévski tivesse nascido nesse tempo, Fellini não poderia existir”, “Dostoiévski teria feito os filmes dele”.

“Um filme é realmente como um sonho, intocável, livre, ilusório, incontrolável como somente um Sonho pode ser”, “O cinema não pertence à Imaginação ou à Memória”, “O cinema não quer que o espectador pense, quer que o espectador não pense”.

“Todos os meus filmes são hippies, e compulsoriamente profissionalizei todas as mulheres com quem me casei”.

“A natureza não tinha o direito de dar aos homens a capacidade de lembrar com nitidez o passado”.

“Rodin, o escultor, disse certa vez que o clímax da beleza feminina é um momento antes da perda da virgindade”, “Depois, os traços já apresentam sinais da “fadiga da paixão””.

“São Paulo é o lugar onde carioca faz besteira”.

“Teatro, o último reduto da inteligência, o primeiro sincero propósito é fazer arte”.

“E o cinema brasileiro é uma prostituta de luxo, com suas ambições, sendo a maior delas aquela de ser indústria”.

“Uma biografia pode e talvez deva ser descontínua como um filme de Godard”.

“A memória cresce quando provocada pelo escritor”.

“Infâncias não são para serem escritas”, “São boas para os filmes, quando os filmes são ótimos”, “Seu novo
filme é uma crônica de sua infância, que devassa a intimidade da moral burguesa”.

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