Por Fabricio Duque
“O Último Cine Drive-In” é uma ode à nostalgia do cinema. Uma época em que a vida se apresentava mais simples em exibições icônicas em espaços que se podiam assistir aos filmes dentro de carros, em céu aberto (“o único que se vê o filme e as estrelas”) e com telas gigantescas. Aqui, uma família “proprietária” de um Cine Drive-In luta para conservar a magia da tela grande (tentando “novos equipamentos”) da política pública, como se fosse a versão brasileira do clássico italiano “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore. O longa-metragem comporta-se como um filme deve ser: fiel as suas vulnerabilidades e limites da produção, “ofertando” assim a própria paixão naturalista, despretensiosa e unilateral pelo conteúdo argumentativo. Dirigido por Iberê Carvalho, e estrelado pelo excelente ator Breno Nino (que vive o protagonista Marlombrando), sem esquecer do veterano Otho Bastos, “O Último Cine Drive-In”, que se traduz por ações silenciosas, elipses temporais e trilha sonora à moda de Tarantino (um estilo cubano “rasgado”), pode ser adjetivado como passional. Há verdade em seu amor, explícita pelas referências a “Invasões Bárbaras”, de Denys Arcand; a “Um Bonde Chamado Desejo”, de Elia Kazan; e ou pela colagem (manual) de fotogramas de um filme; e ou pelas próprias definições contraditarias de “operadora cinematográfica” versus “projecionista”. O roteiro busca também questionar o “futuro do cinema” das máquinas do Espaço Itaú de Cinema (a modernidade) com a “relíquia Matuzalém” (“Amor ao cinema?”, rebate-se com estranhamento), e criticar a Saúde do hospital público (e o horário de acompanhamento ao paciente). “O Último Cine Drive-In” utiliza metalinguagem, soando um importante documento de uma “tentativa” de salvar a exibição analógica, sem deixar de lado a diversão coloquial, como por exemplo, no diálogo: “O valor é por carro?”, “Por pessoa, e por acaso carro assiste filme?”. Conjuga-se realismo ficcional de tempo de cinema com a paixão utópica (“o último romântico”) do sonho (a Kombi; a película do passado como lembrança:“Taxi Driver”, “Bruce Lee”, O Poderoso Chefão”, “Fale com Ela”, “Jackie Brown”, Omar Sharif em “Lawrence da Arábia”, a música italiana de Federico Fellini, a camisa de Karatê Kid). “O Último Cine Drive-In” segue a narrativa de situações-limites e finaliza com a liberdade poética da aventura, assumidamente Fellini e que “arrepia” até mesmo o mais cético dos “brutos”, que neste caso, “também amam com paixão incondicional” e sem máscaras. Não há como não se emocionar com a história de um jovem, que se vê obrigado a voltar à Brasília, sua cidade de natal, devido a doença de sua mãe, Fátima (Rita Assemany). Lá, ele vai reencontrar seu pai, Almeida (Othon Bastos), dono do Cine Drive-in, há 37 anos. Ele insiste em manter vivo o cinema, mesmo não atraindo mais espectadores como na década de 70. Para isso, conta com a ajuda de apenas dois funcionários: Paula (Fernanda Rocha), que cuida da projeção e da lanchonete; e José (Chico Sant’anna), um velho amigo de Almeida, que ajuda a vender ingressos no caixa e da limpeza do local. Com a ameaça de demolição do Cine Drive-in e o agravamento da doença de Fátima, pai e filho vão ter que se unir e tentar reviver o passado. “O Último Cine Drive-In” é uma obra que “pede ajuda” para “salvar” uma “pura” nostalgia, que almeja (re)humanizar o cinema, e que “investe” cada esperança na mais remota possibilidade (e do último fôlego das amantes da cinefilia clássica) de “reacender” a luz imagética, libertadora, sensível, “viajante” de uma arte que não pode morrer e ou deixar de existir. Sem o cinema, não há mais futuros e expectativas. Recomendado. Exibido no Festival do Rio 2014 e que venceu nas categorias de Júri da Crítica, Melhor Atriz Coadjuvante (Fernanda Rocha), Melhor Direção de Arte (Maíra Carvalho) e Melhor Ator (Breno Nina) da edição 2015 do Festival de Gramado. Mais que merecido. Cada aplauso.

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