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“Não queria fazer uma ficção que não tivesse nada com essas pessoas. Foi feito um roteiro não tradicional, apenas uma escaleta com as histórias individuais dos personagens, em que o filme pudesse inventar e não ser só um registro criativo, forte, de um jeito interessante. Mas tinha uma roteirização constante de micro-trajetórias irregulares – de deixar uma marca e sumir abruptamente. Um filme que mostrasse a vida e os espaços e não que se visse a periferia. Fui descobrindo os atores e disse ´vamos ver no que vai dar´ com as mais de 130 horas de material em quase quatro anos de gravação”, disse o diretor Affonso Uchoa.  
Por Fabricio Duque

 

“A Vizinhança do Tigre”, apresentado na VI Semana dos Realizadores já com status de vencedor por ter sido premiado no 17º Festival de Tiradentes (Melhor Filme Júri Oficial e Júri da Crítica) e no Olhar de Cinema de Curitiba, entre outros, é o segundo longa-metragem do diretor paulista Affonso Uchoa (de “Mulher à Tarde”), que corrobora a premissa pretendida de examinar o silêncio, o tédio e a convivência. Se no anterior eram mulheres, neste filme em questão, o roteiro “retrata” os jovens (“que precisam domar o tigre que mora dentro deles”) Juninho (Aristides de Souza), Eldo (Eldo Rodrigues, “In Memorian”), Adilson (Adilson Cordeiro), Menor (Maurício Chagas) e Neguinho (Wederson Patrício). “A Vizinhança do Tigre” cria o hibridismo, confundindo ficção e documentário ao “explorar” vazios existencialistas e espaciais. A narrativa, sobre esses “errantes” moradores da periferia de Contagem, em Minas Gerais, mostra-se como a de um reality show, um big brother realista de câmera próxima, tentando-se captar a falta do que fazer e complementar com “passatempos” não completamente legais: brincadeiras de cunho violento, ouvir diferentes estilos musicais (Rap, Funk, Rock do “Silverchair”, Heavy Metal), carta a um “camarada” que está na prisão (“contando as novidades”), picardias infantis (ensaiadas, teatralizadas, forçadas e antinaturalistas), ingenuidade comportamental, trabalho “obrigado” (cotidiano de uma obra), experiências “marginais”, alienação psicotrópica, “diversão” do crime, e uma esperança resiliente (“lutar por dias melhores”) – que se sabota no próprio adjetivo pelas “possibilidades” tentadoras da vida (“queimar pedra”, cocaína – “o poder branco” – e fumar maconha), ora se intercalando outras histórias (como a do casamento) de fragmentação ilustrativa (sem tensão, conflito e o porquê, mesmo com a “dívida do revólver”), ora imagens em “estátuas” pessoais de movimentação pausada. Em toda obra, necessariamente, há a necessidade inicial, mesmo ínfima, de estimular o interesse de seu público, o que não é encontrado aqui. O “nada” precisa da cumplicidade do espectador para inferir o “tudo” abordado. A estrutura da câmera ligada estática (na maioria dos momentos sem a intervenção da direção) e “perdida” de estender o tempo perceptível em ações detalhistas e de preencher “vazios” contemplativos com o acaso criado soa muito mais como uma pretensão estilizada (o dia clareando em tempo real, por exemplo) que cinema de gênero propriamente dito. São “crianças” cuidando de “crianças” em “viagens erradas”, sem a presente cobrança dos pais (com uma ou outra intervenção, como a “água abençoada”), que cozinham para a “larica”, que dialogam incongruências verborrágicas, alteradas e ininteligíveis (exacerbando linguajar depreciativo de “zoação” ingênua, repleto  de “palavrões-gírias”,  e de adjetivos ofensivos – “retardado”, “ridículo”, “arrombado”, “anta”, “doença frenética”, “pilantra”, “gangster de New Jersey” –  mas de “aceitação amigável”) no melhor estilo “Beavis and Butt-head” (antigo seriado da MTV de dois “delinquentes” que “trocam” piadas “sem graça e estúpidas”). Eles “brincam” (espremendo líquido da laranja em um, jogando pipoca em outro e corretivo “liquid-paper” no rosto e no cabelo), meio “Jackass”, meio constrangedor, com armas de fogo e se projetam em guerras, tiroteios, perseguições e em competições de quem “levou mais tiro”. O público questiona se este é o futuro do nosso país. Esperamos que não. E sim, mais “skate”, mais “som de gaita” e menos escolhas “erradas”. Concluindo, um filme que tenta a naturalidade de documentar uma antropologia social, mas o que consegue é o vazio “oco” de instantes apenas “passatempos”. “Tinha uma relação pessoal com o filme. Nasci em São Paulo, mas fui morar neste mundo desconhecido. Eu era um íntimo estrangeiro que seguiu um caminho diferente. Fazer faculdade já criava essa separação. Eu estava lá, mas era dali. Resolvi fazer um filme sobre a distância, vencida pelo cinema. Ver a vida dos amigos e dos que moravam no mesmo lugar. Encenar uma estrutura corretivista e fragmentada. Chegar pela via torta. Eu tinha dúvidas sobre quais histórias iam compor o mosaico da vida do bairro. E conhecer essas pessoas para fazer algo ficcional”, finaliza o diretor Affonso Uchoa.

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