Por Fabricio Duque

A Academia Brasileira de Cinema, com sede no Rio de Janeiro, foi criada no dia 20 de maio de 2002 com a finalidade, entre outras, de instituir o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e contribuir para a discussão, promoção, diversidade, visibilidade e um esperado fortalecimento do cinema como manifestação artística, ajudando, desta forma, a fortalecer a indústria cinematográfica brasileira.

A edição 2014 aconteceu no dia 26 de agosto de 2014, às 21 horas, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, contando com a presença de diretores, atores, profissionais do cinema e celebridades brasileiras.

O Grande Prêmio do Cinema Brasileiro é diferente porque é organizado e votado pelos próprios profissionais, uma forma da própria classe celebrar o seu trabalho e dar o devido reconhecimento ao talento de seus profissionais. A premiação é anual. O processo de definição dos vencedores do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro é dividido em duas etapas: indicação e premiação. Todos em busca do Troféu Grande Otelo. Concorrem os filmes que estrearam no ano de 2013. “Cinema de gênero fazendo de novo escola aqui no Brasil” e “Premiar a excelência do Cinema Brasileiro” representaram algumas máximas ditas na cerimônia.

Aos que não sócios e afins, o “Oscar do Brasil” foi transmitido pelo Canal Brasil na íntegra. O Vertentes do Cinema fez a cobertura ao vivo. O Presidente da Academia Roberto Farias busca chamar a atenção ao gênero comédia, “uma tradição do Cinema Brasileiro”, e homenagear o dramaturgo “tudo” Domingos Oliveira (“um pensador” que “elevou a comédia ao artístico”). A cerimônia foi baseada no primeiro filme do Domingos, “Todas as Mulheres do Mundo”.

“Pujança e a vitalidade do cinema brasileiro”, disse Pedro Bial (de “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”). “Sou muito intuitivo na escolha do elenco”, disse Heitor Dalia (de “Serra Pelada”), sobre a atriz Sophie Charlotte. “Foi muito divertido pelos países por onde passou, que fala de amor, sonho, paixão pelo cinema… O segredo está no Ceará: a “fuliagem””, disse o diretor Halder Gomes (de “Cine Holiúdy”, “um Titanic do Ceará”). Kleber Mendonça Filho, de “Som Ao Redor” diz que “vim pro Rio encontrar os amigos e beber de graça… é tudo simbólico e fecha a carreira do filme… tenho que pensar nos dois filmes que já estou escrevendo o roteiro”. Ísis Valverde disse que “brigou pelo papel em Faroeste Caboclo… e fiz o teste mesmo assim”. Hilton Lacerda disse “o filme tem inúmeras pretensões… mas a mais importante foi a entrega dos atores em cena”. E sobre o ator Jesuíta Barbosa, disse que é  “técnico e, ao mesmo tempo, afetivo”.

A festa começa com Roberto Farias,o Presidente, agradecendo a todos e apresentando o filme “Todas as Mulheres do Mundo” (48 anos em 2014) com Leila Diniz e Paulo José. Tudo que foi dito esta noite foi escrito pelo Domingos, com frases clássicas (do próprio). Os “personagens”  Thiago Mendonça (de “Somos Tão Jovens”), Caio Blat e Maria Ribeiro (que dirigiu o documentário “Domingos” sobre o “homenageado” aqui) interpretam a metalinguagem, interagindo como um “Rosa Púrpura do Cairo”. Uma ode ao Domingos. “O que alguns olhos têm que outros não têm?”, com interpretações ao vivo. “Tudo na vida é relativo, mas a paixão é absoluta”, diz-se, encenado, “palavras” do mestre, entre trechos do filme “Todas as Mulheres do Mundo”, projetado no telão do Teatro Municipal. Adjetivos e mais adjetivos a Domingos, lúdicos e poéticos, realistas e apaixonados. Uma verdadeira homenagem.

E um “In Memorian” aplaudido efusivamente (Ricardo Miranda, Eduardo Coutinho, José Wilker, entre outros que deixaram uma “enorme contribuição ao cinema brasileiro”. “O amor é o que importa… o resto é propaganda”. “A arte é a vida sem as partes chatas… a arte é ampliar os mistérios do palco”.

E acontece a homenagem ao José Marinho (professor emérito, que atuou em vários filmes do Cinema Novo) do Curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense – UFF, criada por Nelson Pereira dos Santos e “consolidado pela excelência”, que recebe o prêmio honorário. “Estamos nesta caminhada há 50 anos”, disse o homenageado. “Vamos ‘fuder’ o dia inteiro? – Ai, Domingos Oliveira, assim você me mata”, gerando gargalhadas de todos.

Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos e Luis Carlos Barreto apresentam Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Diretor. Intervalo aos “personagens” encenados. E para entregar o último prêmio de Melhor Filme, Roberto Farias (que “esteve ao lado do cinema e não do Governo”… e quando saiu da Embrafilme, fez “Pra Frente, Brasil”), “fechando o quarteto fantástico”. Barretão critica a estrutura gestacional e diz “isso é o Brasil”. “Homenagem a gente não rejeita”, responde e anuncia “Faroeste Caboclo” como o Melhor Filme, recebendo o Troféu Grande Otelo, filme grande vencedor da noite com sete prêmios.

Os prêmios são anunciados em bloco. Três e até cinco de uma vez. Ficamos meio perdidos na “confusão” e com tanta gente no palco. E continua a gigantesca homenagem a Domingos Oliveira (nos seus 16 longas-metragens), com os atores do mestre e com tempo para um “whiskynho”. “Um pensador, um escritor, e poucos que tem a coragem de se expôr, usando a própria vida como matéria-prima”. E Paulo José, o interprete, aparece e é aplaudido de pé. “Você tem que estar do lado da vida, mesmo que a vida te trate mal”. E Domingos Oliveira, nosso “Woody Allen brasileiro”, entra como uma festa e diz (com rouquidão asmática), definindo e criticando do jeito dele o processo do cinema hoje em dia: “Eu entrei trazendo meus netos… se você levar uma vida reta e honesta as pessoas vão te respeitar… obrigado, obrigado… uma homenagem deste porte demanda uma prestação de contas… eu estou bem… eu trabalho, moro no Leblon e estou vivo… nunca pensei que a luta pela vida fosse tão prolongada… eu trabalho de dia, mas só nas horas vagas… tem gente que não me suporta… velho otimista é dose… sou um campeão de auto-estima… você só pode gostar dos outros se gostar de si mesmo… o cinema é um bisturi fino… deve haver todo tipo de cinema… mas a indústria tem que saber que é só um veículo ao cinema útil… ” e finaliza “Dê o maior amor ao seu próximo porque ninguém passará duas vezes pelo mesmo caminho”. Um discurso coerente que faz a cada ano em prol do cinema independente. “Já que a festa é inevitável, divirta-se”. E a cerimônia termina com música e “trenzinho” a la Federico Fellini.  Viva o Domingos de Oliveira! E até o ano que vem!

MELHOR FILME

Cine Holiúdy (VOTO POPULAR) – “quem faz filme pode ser o que quiser, até astronauta… um legado que este prêmio traz à comédia”
O Som ao Redor
Tatuagem
Faroeste Caboclo – TROFÉU GRANDE OTELO – “levamos sete anos pra fazer e contamos sete prêmios hoje… é cabalístico”, “é meu primeiro filme e começou quando eu escutava a música do Renato e morava em Brasília… sentimos dificuldade de manter um filme na sala de cinema… e que o Governo nos ajude a manter o filme por mais tempo… equipe dedicada e coesa… já estamos começando a produção de outra música “Eduardo e Mônica””, finaliza o diretor. 
Flores Raras

MELHOR DOCUMENTÁRIO

A Luz do Tom – “é uma honra estar trabalhando com Nelson há tanto tempo, que é um mestre” e o mestre fala “obrigado”
Dossiê Jango
Elena (VOTO POPULAR) – “Petra está viajando… um filme para chorar, um filme para rir… o público gosta das duas coisas”
Jorge Mautner – O Filho do Holocausto
O Dia que Durou 21 Anos
São Silvestre

MELHOR COMÉDIA

Colegas
Meu Passado Me Condena
Minha Mãe é uma Peça
Cine Holiúdy – “agradecer a equipe que rala mesmo… e ao público do Ceará que bateu “Titanic”… esse prêmio é de tanta gente, de Chico Anísio, de Renato Aragão”
Mato Sem Cachorro

MELHOR FILME INFANTIL

Corda Bamba
Meu Pé de Laranja Lima – “viva o cinema infantil que também é difícil… fala de um menino incompreendido que tenta superar as dificuldades pela imaginação, assim como nós”
Tainá – A Origem
Minhocas

MELHOR ANIMAÇÃO

Uma História de Amor e Fúria – “anos de trabalho… agradecer e dizer que encaramos os problemas e colocamos na tela… não é fácil fazer filme de animação… adoramos a brincadeira… viva a animação brasileira… questão da qualidade… seis anos com o povo da animação… que respeitemos nossas animações assim como é respeitado lá fora”
Minhocas

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

A Grande Beleza (Itália)
Azul é a Cor Mais Quente (França)
Amor (Áustria)
Blue Jasmine (Estados Unidos)
Django Livre (Estados Unidos) – “agradecer a equipe pela Sony Pictures” + (VOTO POPULAR)

MELHOR DIREÇÃO

Bruno Barreto (Flores Raras) – “por motivos de trabalho estou no exterior… este é o prêmio mais importante que recebi”
Halder Gomes (Cine Holiúdy)
Heitor Dhalia (Serra Pelada)
Hilton Lacerda (Tatuagem)
Kléber Mendonça Filho (O Som ao Redor)

MELHOR ATOR

Edmilson Filho (Cine Holiúdy)
Fabrício Boliveira (Faroeste Caboclo) – “gostaria de agradecer aos encontros que a gente tem na vida, no cinema… é voyeurismo. retrato de um brasileiro do imaginário popular”
Irandhir Santos (Tatuagem)
Irandhir Santos (O Som ao Redor)
Jesuíta Barbosa (Tatuagem)
Wagner Moura (A Busca)

MELHOR ATRIZ

Fernanda Montenegro (O Tempo e o Vento)
Glória Pires (Flores Raras) – “a filha apresenta e agradece dizendo que minha filha Ana perdeu a timidez”
Ísis Valverde (Faroeste Caboclo)
Leandra Leal (Mato Sem Cachorro)
Sophie Charlotte (Serra Pelada)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Antonio Calloni (Faroeste Caboclo)
Bruno Torres (Somos Tão Jovens)
Jesuíta Barbosa (Serra Pelada)
Matheus Nachtergaele (Serra Pelada)
Wagner Moura (Serra Pelada) – “morando na Colômbia porque está filmando Pablo Escobar com José Padilha”

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Alexandra Richter (Minha Mãe é uma Peça)
Ana Marlene (Cine Holiúdy)
Ângela Leal (Bonitinha, mas Ordinária)
Bianca Comparato (Somos Tão Jovens) – “personagem leve… não estou muito acostumada a trabalhar”
Sandra Corveloni (Somos Tão Jovens)

MELHOR FOTOGRAFIA

Adrian Teijido (A Busca)
Affonso Beato (O Tempo e o Vento)
Lito Mendes da Rocha (Serra Pelada)
Gustavo Hadba (Faroeste Caboclo) – “indicado por ‘Bróder’ e ‘Lula'”
Mauro Pinheiro Jr. (Flores Raras)

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

José Joaquim Salles (Flores Raras) – “agradecer ao Bruno Barreto que apostou em mim”
Juliano Dornelles (O Som ao Redor)
Tiago Marques (Faroeste Caboclo)
Renata Pinheiro (Tatuagem)
Marcelo Escañuela (A Busca)
Tulé Peake (Serra Pelada)
Tiza de Oliveira (O Tempo e o Vento)

MELHOR FIGURINO

Bia Salgado (Serra Pelada)
Chris Garrido (Tatuagem)
Marcelo Pies (Flores Raras) – “Agradecer a Lucy Barreto por estar desde o início… ganhar prêmio não significa parar de trabalhar”
Valéria Stefani (Faroeste Caboclo)
Joanna Fontelles (Cine Holiúdy)

MELHOR MAQUIAGEM

Ancelmo Saffi (Flores Raras)
Auri Mota (Faroeste Caboclo)
Cris Pires (Cine Holiúdy)
Donna Meirelles (Tatuagem)
Siva Rama Terra (Serra Pelada)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

Uma História de Amor e Fúria – “pela minha família por acreditar”
O Som ao Redor
Serra Pelada – “pela confiança no trabalho… agradecer minha família porque tudo começa em casa… agradecer a equipe porque não fazemos nada sozinho”
Flores Raras
Faroeste Caboclo

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

André Pereira (Mato Sem Cachorro)
Heitor Dhalia e Vera Egito (Serra Pelada)
Hilton Lacerda (Tatuagem)
Kléber Mendonça Filho (O Som ao Redor) – “melhorado em dois anos”
Halder Gomes (Cine Holiúdy)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Bernard Attal, Iziane Mascarenhas e Sérgio Machado (A Coleção Invisível)
Julie Sayres e Matthew Chapman (Flores Raras)
Marcos Bernstein e Melanie Dimantas (Meu Pé de Laranja Lima)
Marcos Bernstein e Victor Atherino (Faroeste Caboclo) – “que possamos carregar um pouco do brilho no olhar que Domingos carrega”
Nelson Pereira dos Santos e Miucha (A Luz do Tom)
Paulo Gustavo e Fil Braz (Minha Mãe é uma Peça)

MELHOR MONTAGEM – FICÇÃO

Dirceu Lustosa (Somos Tão Jovens)
Helgi Thor (Cine Holiúdy)
Kléber Mendonça Filho e João Maria (O Som ao Redor)
Letícia Giffoni (Flores Raras)
Márcio Hashimoto (Faroeste Caboclo) – “fez parte da minha infância… fizemos um trabalho lindo”

MELHOR MONTAGEM – DOCUMENTÁRIO

Alexandre Saggese e Luciane Correia (A Luz do Tom)
César Tuma e Verônica Saenz (O Dia que Durou 21 Anos)
Leyda Nápoles (Jorge Mautner – O Filho do Holocausto)
Marília Moraes e Tina Baz (Elena) – “um trabalho feito com tanta entrega… dedico às mulheres fortes do filme”
Paulo Henrique Fontenelle (Dossiê Jango)

MELHOR SOM

Alessandro Laroca, Armando Torres Jr. e Eduardo Virmond Lima (Uma História de Amor e Fúria)
Alfredo Guerra e Érico Paiva (Cine Holiúdy)
Jorge Saldanha, Alessandro Laroca, Diego Gat e Lucas Meyere (Serra Pelada)
Leandro Lima, Mirian Biderman, Ricardo Chuí e Paulo Gama (Faroeste Caboclo) – “todos os filmes que a gente faz é sempre grandes movimentos e este não seria diferente”
Paulo Ricardo Nunes, Alessandro Laroca e Armando Torres Jr. (Flores Raras)

MELHOR TRILHA SONORA

Fil Pinheiro (Elena)
Jards Macalé (Jards)
Jorge Mautner (Jorge Mautner – O Filho do Holocausto)
Lina Chamie (São Silvestre)
Paulo Jobim (A Luz do Tom)

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Antônio Pinto (Serra Pelada)
Carlos Trilha (Somos Tão Jovens)
DJ Dolores (O Som ao Redor)
Marcelo Zarvos (Flores Raras)
Phillipe Seabra (Faroeste Caboclo) – “fiquei preocupado por que ainda sou amigo do Renato… mais alguém se aproveitando? Não, não é… Eu sou do rock, sou de outra galera… dedicar ao Alberto Salvá… Phillipinho tá na hora de dormir (sempre diziam isso para mim)”

MELHOR CURTA-METRAGEM DE FICÇÃO

Au Revoir, Milena Times
Frerte, de Hsu Chien – “estou aqui por causa do meu amor pelo cinema… acreditem no seu diretor, um recado aos atores”
Linguagem, de Luis Rosemberg Filho
Os Irmãos Mai, de Thais Fujinaga
Todos os Dias em que Sou Estrangeiro, de Eduardo Morotó

MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO

A Guerra dos Gibis, de Thiago Brandimarte Mendonça – “essa ditadura não passa… vimos com olhar ingênuo… um estado fascista que pensa a segurança de modo autoritário… se fizesse o filme hoje não falaria de passado, mas de presente”
Até o Céu Leva Mais ou Menos 15 Minutos, de Camilla Battistetti
Contos da Maré, de Douglas Soares
Gericinó, de Gabriel Medeiros e Maria Clara Senra
Luna e Cinara, de Clara Linhart

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

Engole ou Cospervilha, de David Mussel, Fernanda Valverde, Gabriel Bitar, Giuliana Danza, Jonas Brandão, Marcelo Marão, Pedro Éboli e Zé Alexandre
Faroeste, de Wesley Rodrigues
Graffiti Dança, de Rodrigo EBA
Macacos Me Mordam, de Sávio Leite
O Menino que Sabia Voar, de Douglas Alves Ferreira – “uma técnica clássica de desenhar quadro a quadro”
Paleolito, de Ismael Lito e Gabriel Calegario
Quinto Andar, de Marcos Nick
Um Dia de Trabajo, de Francisco Rosatelli

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