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Um filme adjetivado para ver e rever

Por Fabricio Duque

 

Com o filme “Olho Nu”, uma homenagem adjetivada (de “qualificar a linguagem”) do diretor Joel Pizzini, o espectador é convidado a adentrar no universo particular, de voz única (que usa como instrumento musical), de um dos artistas mais representativos da música brasileira. Ney Matogrosso deixa-se despir com autoanálise realista, resignada, cirúrgica (de alguém que já explorou possibilidades infinitas do pensamento à ação concreta). Os adjetivos em monólogos do próprio “ser” abordado revelam-se muito mais sistemáticos do que o resultado final desejado. Com toda transgressão de suas obras, Ney assume que até o improviso é repetidamente ensaiado. Joel, com quase quatrocentas horas de arquivo do “personagem”, arregaça as mangas e transforma o “terremoto” em um “vibrante processo”. Com o apoio total do Canal Brasil (que em breve outras cenas inéditas e cronológicas se transformarão em uma série de cinco episódios com duração de vinte e cinco minutos), que “digitalizou arquivos de mídias esquisitas”, que “queria contar a história de um artista muito especial” e que sentimentaliza quando diz que “este filme tem todo um encantamento”, o documentário, que fez o protagonista “esperar cinco anos”, teve homenagem “in memoriam” a Ricardo Miranda (que ajudou na montagem) no Cachaça Cinema Clube no Cinema Odeon (vídeo que pode ser conferido logo abaixo), com uma lua cheia (lembrada) que pode ser a metáfora resumida do “porquê de Ney ser assim”. O filme “traduz” o cantor como um revolucionário provocativo, exacerbando a libido nas perfomances, que “a melhor coisa foi ter sido filho de militar, porque já nasceu transgressor”, que busca a essência mais ruralista da natureza, quase instintiva de expor o peito cabeludo, de rebolar, de enfrentar a estranheza alheia (incluindo o preconceito) com um olhar direto, confiante e desafiador, sendo andrógeno, hermafrodita, de rosto pintado (as máscaras o fizeram entender quem era), com passionalidade visceral de vencer os próprios limites, vergonhas e demônios, e “perdendo” a ingenuidade quanto mais seguia a diversidade de seu caminho, mas sem diminuir a energia dominante dos próximos desafios de recriar metamorfoses. Não há saudades, sentimentalismos, depressões e clichês em sua forma de “autonarração”. O que parece é a de um personagem que não vivencia a tristeza e sim só a naturalidade cotidiana aceitada. A narrativa aborda os shows, os convidados, Cazuza, a mãe, a necessidade de experimentar o mundo (Brasília) e passeia pela história de nosso país (a guerra, a censura, as Diretas Já, a AIDS). É um filme melancólico, que mostra a “sobrevivência” deste artista “seco” e “molhado”. Que questionou a sociedade, que processou e que moldou com certeza “quase” absoluta. E agora é o que está sendo. Dizendo o que pensa (com ideias “medidas”), agindo como opositor do Governo, com polêmicas sociais e anti-hegemonia do senso comum. Ney é um homem-diva. Bruto, rústico, que usa brilho, saia, e batom, porém conserva o lado vigoroso de ser “uma mulher macho sim senhor”, que antes queria “trepar” com a plateia, agora quer “acariciá-la”. Concluindo, um filme para ver e rever, com frases pontuadas e adjetivadas, tenta-se, mesmo talvez sendo um personagem criado por ele mesmo, uma consequência do tropicalismo, “escancara-lo”. É curioso, interessante, prazeroso e um “jogo” para descobrir sentimentos reais e mentiras sinceras, dentro da “casca louca” de Ney Matogrosso. 

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