Um Filme Para Inglês Ver

Por Fabricio Duque

Uma das maestrias do diretor José Eduardo Belmonte é a forma como consegue extrair visceralidade de seus atores. Não há o “mas”. As interpretações “mergulham” o espectador à trama, causando um incômodo quase sinestésico. Os diálogos saem com naturalidade e realismo, mitigando a percepção da própria atuação. Em seu mais recente filme “Alemão”, há os atores Milhem Cortaz (incrivelmente visceral, violento, surtado e “possuído” no papel); Caio Blat (intenso e contido ao mesmo tempo); Otávio Müller (abusando da naturalidade interpretativa); Mariana Nunes (fantástica e completamente entregue); e os mais “fracos” (ainda assim interessantes), em ordem de importância): Antonio Fagundes, Gabriel Braga Nunes, Cauã Reymond, Marcelo Melo Jr. (que faz o personagem Carlinhos – aclamado pelo crítico Luiz Carlos Merten do Estadão) como o melhor do elenco – realmente o subjetivismo é algo, digamos “subjetivo”).  Outra característica marcante do cineasta é a diversificação temática. Do existencialismo (dos primeiros trabalhos) ao gênero comercial (o último), passando também por sutis homenagens (caso de “Billi Pig”) e pelo surrealismo (em “Gorila”). Belmonte experimenta estilos, técnicas e narrativas sem “abafar” sua paixão pela sétima arte. Acima de tudo, é um escultor. É fato comprovado, que quanto maior os patrocínios e quanto maior o “poder” de uma produtora, o produto final precisa “atender” a certos critérios (audiência, política e marketing). Assim, “Alemão” reverbera o discurso unilateral pró-UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) – retratada de forma justa em “Morro dos Prazeres”, de Maria Augusta Ramos, ficando na superficialidade do tema, mostrando o que se pode mostrar: uma “caricatura” já conhecida de policiais corruptos, já trabalhados em “Tropa de Elite”, de José “Robocop” Padilha. O roteiro corrobora a propaganda (“para inglês ver”) do governo, indicando apenas o discurso apaixonado e “funcional” de efeito de Governador Sérgio Cabral. Isso incomoda. Mostra clichés cariocas e narrativos (o “hip hop”, o show na praia, flashes explicativos no prólogo, bonde do “playboy”, câmera próxima, imagens de arquivo de televisão, camisa do time Flamengo – o traficante ” meio bobinho dono do morro” – que ouve funk no fone de ouvido em edição lenta, camisa do time Vasco (“polícia salvadora”), policiais infiltrados, o envolvimento amoroso de um policial com a irmã de um traficante, ruídos de efeito, jogo duplo dos moradores. “Pobre não consegue ficar em silêncio mesmo”, diz-se, gerando gargalhadas do público. Ou “Parar de ser bandido, virar criminoso”.  Assim como a música que sentimentaliza e dramatiza a história, que só não foi totalmente comparada a uma novela de estrutura policial muito comum na nossa televisão por mérito único de seus atores. Magníficos e estupendos. Eles souberam construir com extrema competência as recorrentes falhas de um um roteiro simples, de gatilhos comuns e altamente ingênuo. Concluindo, um longa-metragem que “tenta” conservar características de Belmonte, mas que pode estar sendo “corrompido” pelo sistema comercial de um cinema palatável e não mais preocupado com conteúdo (“Não tem heroísmo na polícia” e ou “Nem todo policial é miliciano”), e que prefere tiros, bombas e desgraças, com todas as explicações redundantes e digressionais, finalizando com manifestações atuais do Rio de Janeiro. Um filme sem caminho, sem equilíbrio e sem foco. Se o espectador precisa assistir? Claro! Não se pode perder essas interpretações dignas de Oscar. 

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