Kill Your Audience

Por Fabricio Duque

“Não pode haver criação, sem imitação”, a frase dita pelo tradicional personagem-professor, com regras “vitorianas de rima, ritmo e metáfora”, pode ser utilizada para explicar a narrativa escolhida pelo diretor estreante em um longa-metragem, John Krokidas. Imita-se, livremente, os primórdios do movimento “beatnick” por referências já “construídas” anteriormente de forma explícita à filmes e livros, como “Na Estrada”, de Walter Salles. E algumas mais sutis como “Educação” e “Sociedade dos Poetas Mortos”. Talvez, possamos relevar a superexposição passional ao tema abordado, visto que John está projetando sua carreira fílmica, não conseguindo, ainda, quebrar barreiras polêmicas, desejando assim permanecer no limite aceitável do politicamente incorreto. Muitos elementos embasam o que foi dito. Já é fato consumado, que ao longo do processo, um filme é transformado por inúmeros fatores e acasos. Aqui, o “sonho” encontrou a resistência de um financiamento cortado. Caso isto não acontecesse, a produção em questão aqui, “Kill Your Darlings”, teria no elenco os atores  Chris Evans, Jesse Eisenberg, e Ben Whishaw. Mas aconteceu. Só que o diretor não desistiu, chamando Daniel Radcliffe para o papel de Allen Ginsberg. O ator britânico tinha acabado de protagonizar o bruxo mágico em “Harry Potter” e tornou-se o galã-adolescente de crianças, jovens e até adultos. A saga fantasiosa deu certo, porém “aprisionou” o ator no mundo de “bom moço”. Ser Allen Ginsberg, um poeta homossexual (com beijos e cenas de sexo), e que começava a aprender a transgressão, em uma época preconceituosa (e extremamente hipócrita), representava um desafio “libertário”, quase uma “desconstrução marlon-brandon” de ser. Com uma “baita” responsabilidade nas mãos, John resolveu construir sua obra sem o necessário aprofundamento e sem a ousadia obrigatória. Ao espectador, a sensação recebida é a mesma de se estar assistindo a um épisódio mais picante de “Crepúsculo”, com estrutura novelesca e de tolerância social “permitida”. Utilizando-se do “medo” superficial, a caricatura e o cliché são recorrentes. “Kill Your Darlings” caminha no limite tênue da pretensão e da ingenuidade, pedindo que seu público seja cúmplice da “imaturidade” descrita, principalmente por repetir poemas “gatilhos comuns”, pela edição ágil, pela falta de silêncio analítico e por “escolher” o gênero policial “comercial” ao conteúdo reacionário, que é baseado em “And the Hippos Were Boiled in Their Tanks”, um romance colaborativo de Burroughs e Jack Kerouac. Como foi dito, é “paixão” demais pelo tema “adorado”. O galã continuará a ser galã (agora também dos gays, que visualizam uma possibilidade da conquista), o ator-Dexter continuará não conseguindo impor sua interpretação vitimada, tampouco Jennifer Jason Leigh, a mãe esquizofrênica, e muito menos o pai, que grita fora do tom quando o filho é aceito na universidade. Nem mesmo Ben Foster como William Burroughs. Tavez, o “santo” Jack salve aqui e ali. Não é um filme ruim. Não. É apenas de gênero que busca agradar aos “crescidos harry-potter”. Fãs da saga “Crepúsculo” gostarão. Aqui há sangue (pacto), cigarros, insinuações sexuais, carinho apaixonado, tentativas de revoltas… Concluindo, um longa-metragem que possui um trabalho incrível de Jess Wess como Set Production Assistants e que merece ser conferido porque não é todo dia que se assiste um galã “perdendo a virgindade com real vontade”. Talvez a “dedada” no galã vampirinho em “Cosmopolis”, de David Cronenberg, mas aí já é outra história. 

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