Por Fabricio Duque

“Educação Sentimental” apresenta-se como o mais recente filme do diretor “mestre” Júlio Bressane (de “Filme de Amor”, “A Erva do Rato”, “Matou a Família e Foi ao Cinema”). O cineasta, um dos representantes da Belair Filmes (com o objetivo de produzir exemplos de baixo orçamento) corrobora seu gênero autoral (e de solidariedade), por preferir o conteúdo à forma, experimentando ângulos de câmera, estilizando narrativas, criando a estrutura existencial “meta”, divididas em física e linguagem, e referenciando ao livro homônimo de Gustave Flaubert. “É um filme ateliê. Uma pintura a muitas mãos para falar de um tema antigo. São os ritmos das sensações, o aprendizado do tempo inatual, arcaico, anacrônico, distante, longuínquo, que fica distante dos seus olhos”, disse Bressane. O longa-metragem mostra o conhecimento pela vivência. Ao mitigar o didatismo e introduzir o querer amoroso, a educação é melhor absorvida. Assim como a inferência da Grécia Antiga, época que os mais “velhos” ensinavam (sem culpa, ressalva, limitação, moralidade e ou preconceito) aos “mancebos”. Os jovens “aprendiam” pela raiva e emoção, sensual e sexualmente. O erotismo era estimulado pela novidade, que gerava o “tesão” de “pau duro”. A narrativa suspende o elemento temporal, deixando a improvisação do momento, como as danças que exemplificam a História. Encena-se para que o conhecimento seja melhor captado e entendido. A professora (Josie Antello, de “Filme de Amor”) representa o passado, a nostalgia. O aluno (Bernardo Marinho, de “O Passageiro”) recebe a educação clássica, “velha”. A conjugação entre o distante (dele) e o natural (dela) criam o contraste do locutor e do receptor. Bressane refaz mais um exemplo belair de ser. O filme divide-se, como disse, em “metas”. Até agora, a metafísica (personificação da palavra como personagem principal). No final, insere a metalinguagem fílmica (bastidores – Bruno Safadi e Walter Carvalho, erros de gravação, ensaios). Há desconstrução do próprio cinema. Quebrar limites entre arte e ficção, e entre texto e visual. O espectador tem a possibilidade de se desconectar da técnica cinematográfica e experimentar uma fita única (exibição em 35mm), com referências adaptadas ao tupiniquim do mundo Nouvelle Vague de Godard. Podemos “despertar” o questionamento, expandir percepções, e tudo pelo “surto” desta epifania, que não é para ser definida, nem analisada, e sim absorvida. “O espectador precisa ter paciência e vontade para assistir”, finaliza Júlio Bressane. 

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