Por Fabricio Duque

“O que aconteceu dez anos depois com os atores do filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles?”, a pergunta é o desafio que o produtor-cineasta-carioca, e ex-judoca, Cavi Borges e de seu parceiro de longa data, Luciano Vidigal. O documentário de apenas setenta minutos cria a memória visual de um dos filmes responsáveis pela retomada do cinema nacional, por sua visibilidade internacional: Festival de Cannes, Oscar (“o choque cultural é muito grande”), entre tantos outros, e “tupiniquim” (caindo no gosto popular pelo realismo encenado na favela. “Cidade de Deus”, o filme, humanizou “pertencentes” da comunidade, fornecendo a oportunidade a atores negros e ou pobres de atuar. Como mensurar o talento? Pela cor da pele? Classe social? 
Os diretores de “Cidade de Deus – 10 Anos Depois” não “amarelaram” e mostraram os bastidores por trás do filme, inclusive valores de salários recebidos (e o questionamento do justo ou injusto – “um filme de milhões”). É sobre o universo destes atores. “Você vai de um pico a outro muito rápido”, diz-se. Alguns continuaram tentando, outros desistiram, e outros reviveram na realidade as ações da ficção cinematográfica (e acabaram presos).
Em dez anos, pode-se perceber, explicitamente, a mudança temporal, mas não na filosofia popular. “Provar para outra pessoa como é a vida de alguém, satisfazer o ego”, ensina-se sobre a arte de interpretar. Mas complementa “É gostoso não ser você mesmo”. É polêmico quando “levanta” a acusação do ator-ladrão que diz que a policia ficou com os 12 mil roubados (por ele), indicando a mensagem social “vitimada” de que precisam sobreviver. “Não quero ser mais ator, e sim diretor de cinema por causa do ponto de vista”, “queixa-se” pelo personagem marcado. A referência de sucesso é uma faca de dois gumes. 
“Não se pode viver à sombra do mesmo papel”. Eles experimentaram pequenos sucessos, o caviar, a limousine, o smoking, o “mundo da fantasia”, a percepção de que “a televisão muda a vida das pessoas”. Humaniza histórias e o desencadeado comportamento social, que se conta pela naturalidade de depoimentos.  Mostra-se a raiz, o antes da fama, o sucesso e o “anonimato” atual. Há Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino Da Hora, Roberta Rodrigues, Alice Braga, Seu Jorge (o mais “ator” de todos – interpretando a si mesmo), entre tantos outros, mas não a presença do próprio diretor, Fernando Meirelles. 
Será que os atores estavam preparados para o sucesso do filme? Será que a condição social de alguns deles foi mais forte do que a oportunidade que tiveram? São estas e outras questões que esta dupla, que usou o conhecimento experimentado e adquirido de curtas-metragens anteriores (a abertura referencia a “Vidigal” pela variedades de “escutas”). Um documentário obrigatório, necessário e curioso, que quer discutir o social do cinema. Uma dica final ao espectador é permanecer até o término dos créditos para que se possa ler o agradecimento do “filme” a este que vos fala. Cavi e Luciano, eu que agradeço!

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