Por Fabricio Duque

 

“Gata Velha Ainda Mia” representa o típico cinema de ator, baseando-se unicamente no mérito interpretativo e no roteiro dominante. O que interessa é o conteúdo apresentado, o tempo dos diálogos manipuláveis e a construção em cena, quase ao vivo. Assim, o ator escalado recebe a total responsabilidade pelas cenas. É cruel? Sim. Mas este desafio é que faz do filme em questão aqui ser incrivelmente magnético. Se simplificarmos, desculpando-se pelos outros profissionais cinematográficos, então teremos quatro figuras fílmicas: três atores e um roteirista (que também resolveu dar a cara à tapa como cineasta). O diretor Rafael Primot (do curta-metragem “Doce Amargo” e “Manual Para Atropelar Cachorro”) aceitou este desafio e escalou Regina Duarte (que contracena quase todo filme com Bárbara Paz).
Não tem para ninguém, talvez, repetindo a personalidade de sua protagonista, a atriz “rouba” a cena e domina o espectador (como uma ciumenta que quer brilhar mais do que qualquer outra), entregando-se completamente à loucura, rabugice, arrogância, prepotência e hipocrisia instantânea. Regina Duarte é Gloria Polk, uma escritora decadente, sistemática e amarga, resolve finalmente abrir sua casa e dar uma entrevista a Carol (“É uma entrevista ou um censo do IBGE?”), a jovem jornalista que mora em seu prédio, para falar de sua volta à literatura após um longo jejum. Um filme sobre mulheres, as dificuldades de se relacionar, de envelhecer e ainda sobre o enlouquecedor processo de criação dos escritores.
O roteiro de Rafael, com perdão do trocadilho, é um primor. Conjuga embates verborrágicos, que às vezes parecem monólogos. É metalinguagem surtada, que manipula da melhor forma, que vivencia o lado cínico agressivo e de humor negro ácido (e incisivo). “Escrevendo, posso dar o troco. É a minha chance”, diz-se. Entre “obra em movimento” e “finais alternativos”, a história confunde-se entre ficção e realidade. É uma mistura referencial de realismo fantástico a Simone de Beauvoir, Bette Davis, Virginia Wolf, Hannibal Lecter e ao “Psicopata Americano”.
“Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento”, diz-se. Não que a atriz Bárbara Paz não tente, mas o egoísmo interpretativo de Regina não permite o equilíbrio. É trabalho para ganhar a categoria de melhor atriz em qualquer festival de cinema nacional, quiça do mundo. “Quem ver esse diretor não sabe do que ele é capaz”, diz Regina ao discursar no cinema Odeon, na mostra nacional do Festival do Rio 2013. Como disse esqueça tudo, inclusive pés atrás. Corra ao cinema e saia com medo da protagonista (que acha que é real).

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