Shakespeare é Shakespeare, Mas Teatro Não É Cinema

Por Dario PR

Transformar uma peça medieval num roteiro cinematográfico é um feito e tanto. Trazê-la para os dias de hoje é um desafio ainda maior. O diretor Joss Whedon [Os Vingadores] tentou, e tentar adaptar o bardo inglês por si já merece uma medalha. Mas as falas shakespearianas, excessivamente poéticas e teatrais (originalmente rimadas), não ficam convincentes na boca de personagens modernos, em diálogos que tentam ser realistas e cotidianos. Ou se verte a frase teatral numa frase coloquial, ou se diz a frase teatral num contexto cênico onde ela soe palatável. 
No caso desta peça específica, penso que seria explorando a comicidade inerente ao enredo da trama, ironizando o absurdo dos personagens ou ridicularizando a pieguice das falas, enfim .. nos fazendo rir. Afinal, a peça é uma comédia de costumes, sem maiores pretensões filosóficas. Infelizmente o filme só alcança o sarcasmo cômico em poucos momentos, e quando alcança é mais por mérito dos atores (como o faz Alexis Denisof na pele do personagem Benedick) que por uma propositura cênica da direção. O diretor, ao contrário, aparenta querer transformar a comédia de costumes numa comédia dramática. Shakespeare deve está se revirando na tumba. Mas o longa não é totalmente desprovido de méritos. Tem vários pequenos lampejos de inteligência distribuídos aqui e ali que vão entretendo o espectador pelas quase duas horas de projeção. 
A fotografia em P&B sutiliza o enfoque e beneficia o filme, mas também peca ao usar uma paleta de cinzas excessiva e com pouco contraste. Quem for esperando aquele P&B vibrante e contrastado de “O Artista”, não vai encontrar. Não é a primeira adaptação da peça para o cinema. Em 1993, Kenneth Branagh fez um belo filme de época inglês com Emma Thompson, Keanu Reeves, Kate Beckinsale e Danzel Washington. Nostalgias a parte, acho muito mais interessante da adaptação do Kenneth, apesar dos 20 anos que as separam. Que os fã(natico)s do Joss Whedon não me comam o fígado por isso .. No mais, esse “Much Ado About Nothing” faz muito barulho por bem pouco, ou quase nada. 

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