A Incompatibilidade da Transposição Do Ser Em Querer
Por Fabricio Duque

É natural e extremamente permitido que diretores de cinema possam exercer a experimentação em seus filmes. Digo até que é um dos princípios da sétima arte. O cineasta canadense Xavier Dolan mostra tendência criativa desde seu primeiro filme “Eu Matei Minha Mãe” aos dezessete anos. Hoje, com vinte e três, apresenta seu terceiro longa-metragem, “Laurence Anyways”, uma odisseia pop, de quase três horas de duração, sobre transmutação comportamental. Laurence (Melvil Poupaud) é um homem que deseja se tornar uma mulher. Em seu aniversário de 30 anos, ele revela a sua namorada Fred (Suzanne Clément) que irá fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Mesmo abalada com a revelação, a namorada resolve permanecer ao lado da pessoa que ama, que sofrerá bastante com a nova situação, tendo que lidar com preconceitos de familiares, amigos e colegas de trabalho. Contra tudo, eles tentarão provar que o amor deles pode superar todas as situações. A sinopse não faz jus à complexidade temática abordada no filme. O diretor corrobora seu estilo autoral, imprimindo câmeras subjetivas, ângulos não convencionais, fotografia estilizada (sombras, reflexos, focos e a falta de), e entrega totalmente a responsabilidade ao ator protagonista Melvil Poupaud (de “O Refúgio”, “Buraco Negro”, “Um Conto de Natal”). A transmutação necessita de tempo para acontecer, por isso a longa duração. A narrativa, como disse, repete os elementos cinematográficos usados nos filmes anteriores. O que era novidade no primeiro e no segundo, neste o que se observa é o excesso de exercícios alternativos de inovação (gerando o próprio clichê do clichê), exceptuando-se, logicamente, pela utilização das cores, que mostram sem palavras o objetivo requerido. Há plasticidade, personificação sinestésica dos sentimentos e pensamentos. Porém, com a prepotência inerente aos jovens de vinte e três anos, perdoamos Dolan pela exacerbação epifânica de reiterar a própria complexidade visual. Gostando ou não, caro espectador-leitor-cinéfilo, o filme representa a escolha fílmica por um cinema que sai da obviedade, integrando um gênero único de se experimentar pela “uma câmera na mão, uma ideia na cabeça”. Concluindo, é longa, poderia ser menor, excessivo, mas obrigatório a investida. 

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