Impressões-Pílulas dos Filmes do Quinto Ao Nono Dia – Parte 2 de 2
Por Fabricio Duque
(de Cannes)
“La Vie d’ Adele”, de Abdellatif Kechiche. Para que se possa entender e adorar o filme em questão aqui, é necessário ler o artigo anterior sobre os franceses e seus trens. Porque eu tentei de forma sinestésica explicar as características presentes no filme, este por sinal, traduz literalmente e realisticamente o cotidiano de uma adolescente francesa que explora as possibilidades da vida. O filme tem três horas e o espectador não vê passar a hora. Tem o timing certo, a fotografia perfeita, atores muito bem dirigidos, sem clichês, afetações e superficialidades. É uma obra-prima com momentos íntimos e cenas de sexo lésbico quase explícitas. No final de uma delas, o público bateu palma. Aqui, há esses rompantes de exposições sentimentais. No final, foi ovacionado por uns 10 minutos ininterruptos. É fantasticamente esplendoroso, azul, simples sem ser simplista, intimista e deve muito à atriz principal, que “segura” nas costas, de forma competente o filme inteiro. Cada frame é apaixonante. Na saída, “esbarrei” em um padre  e quase perguntei o que ele achou? PALMA DE OURO.

“Only God Forgives”, de Nicolas Winding Refn. “Eu não sou muito fã de filmes de luta, mas achei que era uma boa para este filme”. As palavras do diretor na Coletiva de Imprensa tentam explicar os porquês da escolha. É um filme extremamente violento, metafórico como uma parábola, que não deixa claro as verdadeiras intenções. Na coletiva, uma jornalista perguntou o que o diretor queria dizer sobre o místico incompreendido, porque não estava claro. Você precisa entender os mistérios e as lendas da Tailândia, ele disse. Realmente não fica claro mesmo. Nem que Deus é o personagem vingativo principal. Nem conseguimos compreender também o porquê de tanta violência. Podemos viajar um pouco: o conflito da religião no campo físico, Maria Madalena como mãe e muito “real bitch” e a imaginação do que se pode começar a ser. Quando captamos isso, aguçamos algumas referências cinematográficas como “Clube da Luta”, filmes japoneses e uma possível continuação de “Drive”. A música, um caso à parte, de horror filme b de ficcao cientifica permeia e se torna parte integrante, como um personagem que interage com a imagem sistematicamente expectacular saturada ao vermelho. Será que Cannes vai perdoar?

“Behind The Candelabra”, de Steven Soderberg. Aborda a vida glamourosa, luxuosa e espalhafatosa de Liberace. É um filme que mergulha no universo gay do artista, tendo Michael Douglas no papel principal completamente entregue e inteirado, dividindo beijos e muito sexo com Matt Damon. Se é bom? É, é muito bom. Soderberg está de volta e em grande estilo, experimentando fotografia, câmera e narrativa como sempre.

“Grigris”, de Mahamat-Saleh Haroun. É a zebra da competição. Não é um filme ruim em hipótese nenhuma, mas destoa consideravelmente das outras produções. Dizem aqui em Cannes que é um filme de política internacional. Os atores são excelentes dentro de uma estrutura fílmica bem feita, mas se torna comum, ingênuo e “apenas” um trabalho apaixonado do realizador. Há estímulo referencial a outro filme  de estética semelhante, “Rebelle”, que foi indicado ao oscar este ano.

“Nebraska”, de Alexander Payne. Em um primeiro momento, o espectador é conduzido à espera do sentimento. Porque conjuga a fotografia preto-e-branco com os primeiros diálogos clichês e tipicamente americanos. Mas tudo muda quando o filme se desenvolve. Começamos a perceber que a história é na verdade sobre a sobrevivência na velhice (com o passado mal resolvido – arrependimentos e ou amores escondidos), esta que precisa conviver com a pressa, o “olho grande” dos ditos “amigos” e ou família, e as inúmeras atribuições dos filhos jovens. É um filme sobre um homem idoso “que acredita em tudo que contam a ele”. A metáfora busca resgatar a simplicidade das pequenas ações e princípios. Como toda estrutura fílmica americana, há diálogos de gatilhos comuns que buscam a cumplicidade de quem assiste, principalmente do próprio público americano. Mesmo assim, o espectador não consegue ficar imune a lágrimas do final, dotado de sutileza de uma vingança “branca” e perfeitamente saudável.

“Michael Kohlhaas”, de Arnaud Des Pallières. O que dizer em uma palavra? Boring. É chato, arrastado e sem direção definida. Apresenta-se como um telefilme novelesco de época em estilo videoclipe (constantes cortes e mudanca de ângulos). Nem o ator dinamarquês Mads Mikkelsen de “A caça”, nem a fotografia e nem a música salvam a pelicula. A grande bomba de Cannes. Um filme existencial “terrorista”. O público olhava a hora do celular de dez em dez minutos. 

“The Immigrant”, de James Gray. É um filme que parece telecine novelesco, incrementando na fotografia nostálgica, que tenta redesenhar a época novaiorquina do começo da imigração (hoje Museu da Imigração na ilha em frente a Estátua da Liberdade). É um longa-metragem tipicamente americano, com cortes rápidos e estilo videoclipe de ser. Os atores não convencem. E olha que tem Jeremy Renner, Marion Cotillard e Joaquin Phoenix (este responsável por grandes momentos, provando ser sim um excelente ator). Quanto a atriz principal, o espectador não percebe as nuances interpretativas. Ela segue a mesma linha vitimada do início ao fim do filme. É estranho, porque Marion está fantástica em “Blood Ties”, que é co-dirigido (não creditado) e co-roteirizado pelo diretor do filme em questão aqui.  É bom, mas não é “great”. 

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