Entendendo Pessoas e Trens 
no Festival de Cannes

Por Fabricio Duque
(de Cannes)

Cannes é uma cidade do sul da França, situada à beira do mar Mediterrâneo, na Costa Azul (Cotê d’Azur). Considerada a Riviera Francesa, é um lugar pequeno, porém dotado de uma aristocracia nostálgica (talvez por ser tão próximo de Mônaco). O festival de cinema acontece desde 1946. Estou hospedado em Nice (dez estações de trem de Cannes). O que eu achava desgastante no início (o trajeto diário), agora, eu agradeço por este conhecimento analítico, que ajudou a melhor entender a estrutura comportamental dos franceses perante a sociedade. O verdadeiro estilo de ser. Eles são educados em palavras (sempre pedindo desculpa, por favor, e obrigado), mas são ríspidos, mas ações. Se precisam entrar no trem, eles empurram, gritam, reclamam, bufam. Já vi de quase tudo no metro. Comecei a perceber que vivem plenamente o próprio individualismo dentro de uma coletividade impaciente recheada de idiossincrasias. Meus olhos presenciaram uma jovem urinando no chão da estação, um bêbado cantando, adolescentes pichando o interior do vagão, surtos de loucura individual de passageiros, música alta e brigas verborrágicas sem agressão. Outro detalhe é a confiança. Não há conferência do ticket. O passageiro pode “tentar” a sorte. Mas se o fiscal (que parece saído de “A Invenção de Hugo Cabret”) conferir e perceber que não há o bilhete, então a multa é certa. Se conservarmos essas impressões, então entenderemos o Festival de Cannes e o cinema que se faz na França (que por Cinefilia influenciou e ainda influencia outras nacionalidades). Até a fila da “alta nata” da imprensa (com suas credenciais top de linha – branca e Pink-yellow) não foge do padrão. Os mesmos hábitos são encontrados. Pessoas furam a fila, se acotovelam para entrar, resmungam, brigam, desafiam os seguranças, não pedem desculpas se esbarram em outros. Até mesmo os funcionários, com exceções, lógico, são assim. Intolerantes, impacientes e altivos. Quanto às regras, não há como burlar o sistema. Se não pode, não pode, mesmo que tenha inúmeros lugares disponíveis. Um dos fatores é a quantidade de gente e de credenciais fornecidas. Há quem diga que o verdadeiro Festival de Cannes acabou. Está quase impossível para quem não é da “elite” jornalística. Há histórias engraçadas, se utilizarmos a observação sem o viés da raiva. É comum no Brasil cumprimentarmos com dois beijos no rosto. Mas aqui não. Quando projetei o ato, a assessora aceitou o fato de ser beijada, mas me advertiu educadamente. Outro detalhe importante. Aqui, todo mundo fuma demasiadamente e sempre se almoça sanduíches. Assim, entendemos que os filmes são exatamente desta forma: uma transposição realista da pseudo-ficção. É quase antropológico. É só assistir aos filmes nacionais daqui e o “iluminismo” se concretizará, ampliando a percepção de cada um de nós. Há infinitas características observadas. Uma delas é que os franceses são dotados de possibilidades ilimitadas de existências, usando na experimentação a melhor técnica de descoberta do que se gosta ou não. Isto é aceitável socialmente sem julgamento contextual (conservando o comum à alma humana), corroborando o elemento intrínseco da trilogia: observam, processam a imagem e definem a percepção momentânea e flexível mediante um “trabalhado” argumento convincente (podendo mudar a qualquer instante). Eles vivenciam o que realmente são. Não se preocupam com os outros. O estilo exposto do “blasé”, e da arrogância, comporta-se como defesas comportamentais (medo, desculpa e ou acreditar piamente na escolha). E para finalizar, quanto à fama de “não tomarem banho”, não é tão verdadeira. Até agora, os “cheiros” são suportáveis e amenos. 

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