Perdas e Ganhos do Festival de Cannes 
no Quinto Dia

Por Fabricio Duque
(de Cannes)

É fato que todos os jornalistas cinéfilos e ou profissionais apenas relatando o que se vê, sem exceção, querem participar do Festival de Cannes. Pois é, sem falsa modéstia (mesmo  soando pretensioso, sem querer) e confessando que suei muito para estar aqui, venho traçar os prós e os contras deste quinto dia. A foto ao lado ilustra bem o trabalho e o empurra-empurra dos jornalistas (e olha que esta é a fila da “alta nata das credenciais mais desejadas”) para que possam assistir aos filmes em competição. Confesso que a cor (hierarquia de entrada) que recebi não foi “confortável”. Este ano, separaram cores por mídias (portanto, o Vertentes do Cinema foi agraciado com a credencial de Web Media (visto que não é impresso e muito menos televisivo). Por conta disso, como já disse nas postagens anteriores, gasta-se muito tempo nas filas de entrada. Já comentei também que se corre demasiadamente aqui, escolhendo filmes, coletivas de imprensa e afins relacionados. Vamos exemplificar. Ontem, eu fiquei três horas na fila para conferir o novo filme dos Irmãos Coen, “Inside Llewyn Davis” (que por sinal é super estilo Coen de ser), enfim, sem querer antecipar informações, e seguindo com a história, digo que perdi a sessão, extremamente lotada, sendo esta mandatória e precedente a fim de participar da coletiva de imprensa realizada hoje. Enfim. Porém no mesmo horário da conferência, o filme foi exibido no cinema do Grande Teatro Lumière. Perdi ontem, perdi hoje, mas ganhei a melhor projeção de todas. É difícil mensurar o que não se consegue. Quanto às coletivas, podemos conferi-las na íntegra, mas gravadas. É só atrasar um pouco (estou aprendendo aqui a controlar a ansiedade e a impulsividade de querer estar em tudo). Enfim parte dois. Outra perda. Hoje também foi complicado assistir ao novo filme do Guillaume Canet, “Blood Ties” (e olha que é um filme fora da competição). Como complemento posso dizer que vários jornalistas renomados também ficaram de fora. O problema? Colocaram a película no menor cinema do Festival. Coisas de Cannes. Coisas de organização. Coisas do ofício. Perdas aceitáveis. E por falar nos filmes, realizo análises breves, “roubando” o título que meu amigo Filipe Moura definiu: “Impressões-Pílula”. É exatamente isso. Então vamos aos filmes vistos:
“The Great Gatsby”, de Baz Luhrmann: Fantasioso, em 3D desnecessário, extremamente cansativo, cliché, perdido e alienado. A palavra definidora pela crítica daqui foi “Boring”. A Cahiers du Cinéma forneceu uma estrela com pena, assim como Le Monde e Positif. Estreou já nesta última sexta aqui em praticamente todos os cinemas da França. O Hotel Carlton colocou posteres em todas as sacadas.
“Heli”, de Amat Escalante: Violento, visceral, usando a brutalidade como mote à crítica social de mostrar o problema para que assim possa solucioná-lo. A coletiva de imprensa basicamente seguiu esta linha. A Cahiers não gostou, Le Monde também não. A Premiere quase forneceu nota máxima (que é o símbolo da Palma de Ouro). Honestamente, o filme torna-se cliché do não cliché em querer chocar com sensacionalismo e exacerbação os sofrimentos de indivíduos minoritários da sociedade.
“Jeune & Jolie”, de François Ozon: Diga o que quiserem, para mim, Ozon é sempre Ozon. Neste filme, a narrativa apresenta-se elegante e sensual (com alto toque sexual). É comum ao tema – misturando a comédia de um dos seus filmes anteriores “Sitcom” com seriedade da abordagem da prostituição. Trocando em miúdos, é a Bruna Surfistinha francesa. Cahiers não, Le Monde adorou e Positif e Premiere ficaram no meio termo.
“The Bling Ring”, de Sofia Coppola: Por incrível que pareça, na possibilidade mais remota do Vertentes do Cinema participar da Cerimônia de Abertura de Un Certain Regard, o “milagre” Cannes de ser mostra seu lado acolhedor. O filme é fantástico, delicioso e viciante no olhar, e na melhor crítica ao mundo de hoje, nós torcemos pela amoralidade. Sempre há expectativa num novo Sofia Coppola. A crítica não gostou, com exceção do Le Monde.
“Tian Zhu Ding” ou “A Touch of Sin”, de Jia Zhangke: É uma mistura de Tarantino silencioso, “Dogville” Larsvontriniano e “Lady Vingança”. Um exemplar de que em algum momento, a sociedade nos fará deixar de vivenciar só o nosso lado de bom. A crítica adorou, incluindo o Cahiers (que depois de analisar as críticas, percebo que é meio crítico demais). Muito bom! 
“Le Passé”, de Asghar Farhadi: Um dos filmes mais aguardados, principalmente por causa do sucesso estrondoso e unânime de “A Separação”. O Passado, provavelmente traduzido assim, apresenta-se mais romanceado do que o anterior, porém continua corroborando o realismo interpretativo. Não podemos ser cruéis e esperar obras-de-arte em todas as realizações de um diretor. A crítica está em consenso em transformá-lo em perfeição, com exceção da Cahiers. 
“Soshite Chichi Ni Naru” ou “Tel Père, tel fils”, de Kore-Eda Hirokasu: É o melhor de todos até agora. Sendo o favorito de público (já que a crítica está dividida e em cima do muro) até agora pela simplicidade aprofundada e complexa de confronto de personalidades e idiossincrasias. É impossível prender algumas lágrimas (incluindo o mais cético de todos). 
“Jimmy P. (Psychotherapy Of A Plains Indian)”, de Arnaud Desplechin: É um filme estranho, parecendo ser um projeto de Faculdade de Cinema. A narrativa não ajuda, os atores não ajudam e a estrutura fílmica muito menos. Podemos classificá-lo como uma novela com um toque de “quero ser independente e estar em Cannes”. A Crítica está dividida. Na fila de “Inside…”, ouvi comentários completamente destrutivos e apaixonados. 
“Borgman”, de Alex van Wanmerdam: Uma história que busca o surrealismo cotidiano e realista, com ações e diálogos de um sarcasmo  completamente sutil. Foi ovacionado pelo público (prorrogando-se o tempo dos aplausos) na exibição de hoje pela manhã. Como o filme aconteceu hoje pela manhã, ainda não tenho as informações da crítica. Só sei que o Vertentes do Cinema adorou (“passionnément”).
“Inside Llewyn Davis”, de Ethan e Joel Coen, os Irmãos americanos: O que dizer sobre o filme que corrobora o estilo Coen de ser. Desta vez, a narrtiva apresenta-se menos surreal e mais epifânica, silenciando o espectador com as músicas folks do artista desamparado. Foi unânime ao positivismo. E como não poderia deixar de ser, a coletiva de imprensa foi a mais disputadíssima. Sem informações sobre a crítica ainda. O Vertentes do Cinema gostou, mas ao escrever a crítica completa, tudo pode mudar.
Então, por hoje é só. Aguarde a cobertura dos próximos filmes (e suas críticas completas), as fotos no facebook e no Instagram; e os vídeos (em edição). Au revoir, mon amies!

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