A Simplicidade Nostálgica do Livro Encontra Uma Tradução Cinematográfica à Altura 

Por Fabricio Duque

“Meu Pé de Laranja Lima” busca a mesma simplicidade nostálgica do livro homônimo escrito por José Mauro de Vasconcelos em doze dias no ano de 1968, e serviu de experiência pessoal para retratar o choque sofrido na infância com as bruscas mudanças da vida. Precisamos abrir um parênteses para que possamos digressionar. Traduzir fielmente o estágio da simplicidade não quer dizer que tenha que ser simplista, tampouco fútil e ou inconsistente. A trama aborda questões complexas, delicadas, existenciais e sentimentais pelo equilíbrio narrativo. “Meu Pé de Laranja Lima” lida com quereres intrínsecos, a solidão, o desconhecido, o confuso, a rejeição, as defesas dos adultos, a desistência dos idosos e a resignação de todos (expressando-se por pequenos deslizes sociais – talvez para assim provar a si mesmo que a vida ainda existe e que não são seres perdidos apenas passando os dias sofridos e sem sentido). As crianças possuem um amigo e um aliado imbatível: a própria imaginação, que a cada instante é destruída por um caminho cruel, realista e sem perspectiva. Todo adulto já foi criança, e redescobre a pureza na convivência dos pequenos. Quando digo que a infância é ingênua, não a extinguo da verdade genuína, porque estes seres que ainda não conheceram alguns dos “mistérios” dizem sem pensar o que lhes vem com naturalidade sentida e curiosidade desprovida do politicamente correto. São sinceros e diretos, ferindo os outros próximos que já construíram barreiras absorvidas pela massificação hipócrita da sociedade. É fato que fazer cinema não é fácil, principalmente no Brasil. O diretor Marcos Bernstein (de “O Outro Lado da Rua” – e que roteirizou “Somos Tão Jovens”, “Terra Estrangeira”, “Central do Brasil”, entre outros”) esperou dez anos para realizar o filme em questão aqui e ao lança-lo no Festival do Rio 2012 disse “Obrigado à produtora por ter sido teimosa tanto tempo. Agora sai das nossas mãos. O filme habita nossos sonhos. Vai de um mundo de quem faz para quem vê”. O longa-metragem inicia-se com a fotografia de Gustavo Hadba (de “Disparos”, “O Caminho das Nuvens”) mudando a cor, voltando ao passado e criando a atmosfera da poesia simples, inferindo Manoel de Barros e Adriana Falcão. E neste instante que o espectador hipnotiza-se com o ator João Guilherme Ávila, que fornece vida, com incrível e competente naturalidade interpretativa (como por exemplo a expressão resignada da espera na infância), ao protagonista Zezé, de oito anos de idade, que sofre a pobreza, a violência do pai, sem presente de natal, mas em hipótese alguma mitiga a crença da felicidade, experimentando por sua mente fértil e otimista, relacionando com atores que rebatem na mesma moeda, como José de Abreu. O Pé de Laranja Lima significa o andar de cavalo, a descoberta, o amigo imaginável e a possibilidade de proteção, escondendo-se do que acontece no lugar o qual passa seus dias. Como disse, há realismo poético e sinceridade aflorada, ganhando caneta para “escrever as histórias que se passam pela cabecinha”. “Não tenha pressa de crescer, e não cresça”, diz-se. De tanto ouvir, acredita que perdeu a pureza, “o passarinho de dentro”. Concluindo, um roteiro muito bem estrutura, uma parte técnica impecável, uma trama que se conta ciclicamente sem brechas, atores conectados e cúmplices. Enfim, um filme único, necessário e como disse o ator José de Abreu em uma de suas entrevistas, “Definitivo”, que já teve  outra adaptação em 1970, e que traduz muito bem a revolução subjetiva e individual no ano de lançamento do livro. E o filme confronta o maniqueísmo da infância com as interpretações técnicas e lógicas da fase adulta. O diretor Marcos Bernstein escolheu como locação as cidades no entorno de Cataguases, em Minas Gerais, devido a características de vilarejos atemporais. “Um dia, eu saio daqui e vou lá pra cidade grande”, e ele vai, na figura especial de Caco Ciocler.

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