Profissão: Doméstica Que Ajuda
 
Por Fabricio Duque
O filme “Doméstica”, do diretor Gabriel Mascaro (de “Avenida Brasília Formosa”)  apresenta-se como um retrato antropológico da relação social de “patrões” e empregados. O espectador pode escolher a forma de se assistir ao filme: se pelo lado caricato induzido ou pela naturalidade, que soa quase um reality show da vida privada, pela condução dos elementos narrativos abordados. Em hipótese alguma, a primeira opção deve ser levada em consideração, pois ambienta uma estrutura quase hereditária desta profissão, que está perdendo força nas novas gerações. Pelo debate acalorado pós-sessão da cabine de imprensa, extremamente tendendo ao positivismo, já podemos classificá-lo como programa cinematográfico obrigatório. A ida ao cinema estimula o questionamento relação familiar quase doentia entre empregadas e empregadores, pelo viés analítico da sociedade como figura personificada. São seis empregadas, um empregado, sete histórias e formas diferentes de relacionamento interpessoal, mas todas são repletas de poder e de tramas consequentes de tragédias ocorridas com a minoria. Faz pensar que talvez o sofrimento gera sofrimento, atingindo quase sempre a classe operária. Há a que perdeu o filho assassinato,  o que perdeu a esposa, a que cuida de uma família, cuja dona também exerce a mesma profissão de dona de casa… É explícito a dificuldade de se conversar sobre dinheiro e salario. As “donas” preferem a máxima “Ela (a empregada doméstica) me ajuda”. Cada uma interpreta, a seu modo, uma felicidade desmedida quase infantil, encenada de forma exacerbada e verborrágica. Talvez por medo de não encontrar algo melhor e ou por comodismo de se tentar um futuro. Estes “seres” apresentam-se carentes, desencadeando a dependência pelo mínimo que recebem, resignando-se com um colchão ortopédico, um ventilador estiloso, um carro para “trabalhar melhor”, um berço, cremes e ou o ato de se sentar na mesa da família judia (“eu sonhei e tudo com este dia”, disse uma delas), enfim, estas “pessoas que ajudam” massificam na época atual um retrocesso ao melhor estilo “escambo português”, recebendo “mimos” para que continuem com a alienação sem o reclame de quereres maiores. Estes “índios” da nova era permanecem “escravos politicamente corretos”. Dá se pouco, mas se dá alguma coisa, e precisam, “apenas” servir os “sinhozinhos” da casa grande, com a preocupação de punição: a rua. A estrutura referencia ao filmes “Santiago” e “Som ao Redor”, este último recebendo um agradecimento nos créditos finais. O documentário é seco e direto, sendo entendido, talvez, por ter sido filmado por adolescentes – filhos, com iniciatividade criativa, como a câmera no armário. Os “que são cuidados” (em determinado momento, as cenas focam as idiossincrasias egoístas dos pequenos “burgueses”) adquirem o poder das regras individuais, radicais e ditatoriais. Busca-se o retrato do dia-a-dia das empregadas, mas atinge o complexo, curioso e arrogante comportamento da classe média, tratada como rica, fútil e intolerante quando se expõe os reais problemas mundanos. Não estamos aqui para julgar e sim para detectar características desta relação. Por outro lado, se pensarmos que, hoje em dia, trabalha-se muito e que o indivíduo social ao retornar à casa ainda precisaria assumir funções de limpeza, cozinha e afins, então, a profissão empregada doméstica é a salvação da lavoura. E também não podemos bombardear uma família que já criou o hábito de ter tudo pronto. O que o filme tenta debater é a forma como este vínculo empregatício funciona. É inevitável que se crie uma relação afetiva. Até porque muitas permanecem mais tempo na casa em que trabalho do que com a própria família. Outro detalhe percebido é o grau intenso de sensibilidade. As empregadas, a maioria delas, com exceção talvez da última (na ordem do filme), são sentimentais e emocionais (ouvem mensagens evangélicas, músicas bregas e choram ao lembrar do passado). Se olharmos o mundo em que vivemos com um mínimo de atenção, detectaremos que vivemos rodeados de empregados. Entramos em um restaurante e um deles nos serve, ou na hora de nos preparar um café. É uma empresa. Por que, então, uma casa não poderia também ser uma? Claro, com direitos, deveres e logicamente com dignidade e integridade. Concluindo, por isso talvez a expressão acima, carregada do anseio de se definir que uma doméstica é sim um empregado. O filme levanta a bandeira de como nos comportamos com aqueles que nos “ajudam”, durante uma semana, por sete jovens, que se tornaram cineastas amadores e filmaram o cotidiano de suas empregadas domésticas. A estrutura não é nova.  Marcelo Pedroso a usou no filme “Pacific”.  O material foi entregue ao diretor Gabriel Mascaro que compilou os momentos mais marcantes.Vale à pena assistir! Imperdível!

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