A Metalinguagem Estilística da Manipulação

Por Fabricio Duque

 

Um dos resultados esperados do emissor quando se conta uma história é, sem sombra de dúvidas, atingir a atenção do receptor, instigando a curiosidade, fator este que será o termômetro que conduzirá de forma positiva até o fim. Porém, se o objetivo pretendido excede as expectativas, digamos, assim, que o “espectador leitor” recebe a manipulação da surpresa sem reclamar, aceitando as consequências de sua entrega à trama inteligente, direta, simples e que respeita, sempre, a sua inteligência. O diretor francês François Ozon (de “Potiche”, “8 Mulheres” e  “Ricky”) sabe muito bem contar uma história, transpassando, à tela do cinema, competência e simplicidade na trama de seu mais novo filme “Dentro de Casa”, sem usar a pretensão a fim de humanizar o pedantismo literário característico no meio adulto, principalmente francês. Ozon é um crítico nato. Irônico, surrealmente sarcástico, intimista, libertário e de ambiguidade sexual (seus personagens podem ser o que quiserem – sem limitações). Um cineasta que aborda o julgamento, que as pessoas têm sobre as coisas, pelo olhar do próprio personagem, redimindo o espectador da culpa, o “deixando” ser somente um voyer, que observa a hipocrisia embasada dos indivíduos sociais, que possuem infinitas particularidades idiossincráticas.  “Dentro de Casa” apresenta-se como um livro, por capítulos, mostrando ações (e reações) consequentes do narrador, que conduz a própria história, “desenhando” o que é retratado a quem assiste.  A narrativa metalinguística cria um caminho cíclico, aprisionando personagens como marionetes, equilibrando a indução interpretativa do teatro (traduzindo a metalinguagem) e a realidade fílmica da ficção (a não fantasia da história dentro da história). Logo no início, a sociedade “entra” em análise nas mãos de Ozon, traduzindo-se quase como uma sessão de terapia, retratando com naturalidade comportamental, o vestir e o despir sem nenhuma vulgaridade.  O uniforme escolar como base de igualdade entre os alunos – indicando a plastificação; a relação professor-aluno nos dias de hoje – dificuldade da atenção por causa do celular; a galeria de arte contemporânea que “apela” ao achismo simbólico; alunos piores e não criativos, “não são capazes de escrever duas frases”,  a vida “normal” da classe média; tudo isso encaminhando-se a “pizza” da literatura. Quando um professor, cansado de “ensinar o gosto pelos livros”, encontra um aluno criativo e dominador das palavras, então acontece a mitigação do complexo e o retorno à estrutura clássica, questionando a prepotência, a impaciência ao novo, a complexidade, a arrogância e a superioridade dos literários em questão. “O pior não é a ignorância deles, é o futuro. Eles são o futuro”, diz. Há também busca à interação sinestésica pela técnica cinematográfica. A batida da música constrói os cortes das imagens e o zoom (aproximação) trabalha cirurgicamente a transposição personificada dos elementos ao roteiro. A linguagem verborrágica imerge o espectador, prendendo sua atenção, fornecendo surpresas, consequências inesperadas e curiosidade aos próximos acontecimentos. Pronto, o objetivo principal de se contar uma história foi conseguido. Ozon não deixa de imprimir o existencialismo típico (analítico, sistemático, convencional, conservador e extremamente julgador – este último responsável pela aceitação do comportamento alheio) dos franceses. “Flaubert não condena os personagens”, ensina. Eu sei, é complicado. Trocando em miúdos, surtam no início para aceitar depois. “É ironia demais para um garoto de dezesseis anos”, alfineta-se. “O melhor lugar é o fundo da classe, porque você vê todo mundo e ninguém te vê”, completa-se o diálogo do casal na fila do cinema para assistir “Match Point”, do Woody Allen. Em determinado momento, a metalinguagem fica explícita e didática, nem um pouco clichê ou piegas, mas sim de uma acidez simplista quase incômoda. “Realismo é ver por uma câmera oculta. Ou está pensando em Estilização, que é escrever o que se vê e o transforma”, diz-se, desesperadamente, definir o que pode ser somente a imaginação de uma mente fértil de alguém que só tem dezesseis anos. “É Pasolini? Apresentação versus representação?”, tenta-se. Chegamos à conclusão de que quanto mais informação se consegue, mais se referencia ao que se sabe, retirando da percepção o “gostinho” da imparcialidade. “Sempre se pode entrar em um casa. Um dia, alguém irá precisar de algo”, finaliza-se. Então, François Ozon está em “ótima” forma, conjugando um elenco primoroso e cúmplice, fotografia lúdica deixando-se mostrar a fantasia da realidade, a música que conduz o caminho, os detalhes que montam o quebra-cabeça, definitivamente, não há falhas negativas. É um excelente exemplo de cinema de qualidade que procura o conteúdo, sem esquecer da embalagem.

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