O Medo e a Coragem de Uma Cineasta Estreante

Por Fabricio Duque

“Não sei se é medo ou coragem”, diz a protagonista-título de “Rânia”, estreia em um longa-metragem nacional de ficção, da diretora cearense Roberta Marques (dos premiados curtas-metragens “Deixa Ir”, “Acorda”, “Looking Forward” e “Amá-la”). A frase existencial pode indicar uma metáfora paralela à difícil arte de ser fazer cinema, principalmente quando se escolhe o gênero independente de estrutura autoral. A trama sobre uma adolescente “Rânia” (Graziela Felix) que vive na periferia de Fortaleza, sutilmente, referencia ao estilo de cinema coral, por intercalar outras personagens que se cruzam (fechando o ciclo narrativo). O roteiro busca a simplicidade ingênua (da técnica cinematográfica) para contrastar com o realismo resignado de pessoas que ainda procuram esperança no escuro, ou no caso daqui, a dança, retratada por estágios de sucesso, comprometimento, desejo, mensurando necessidades de envolvimento artístico ou puramente carnal. Se de um lado, sua amiga inseparável, Zizi (Nataly Rocha), a introduz no Sereia da Noite, tendo assim que conviver com a promiscuidade boêmia (e o dinheiro); do outro, conhece a coreógrafa Estela (Mariana Lima), que a convida para fazer parte do grupo de dança em Nova Iorque. Este, inicialmente sem dinheiro, pode proporcionar a Rânia a oportunidade única (no momento) de vivenciar plenamente seus sonhos (e ainda sair do lugar “pequeno” que mora). Basicamente, é um argumento tradicional, lembrando esteticamente os filmes “Era Uma Vez, Eu, Verônica”, “Abismo Prateado” e “Capitães de Areia”. O que eles têm em comum com a versão em questão aqui? Todos preocupam-se com os detalhes, principalmente com o intuito de mascarar possíveis problemas técnicos. Lembre-se: um filme com poucos recursos e que se não fosse a coragem exagerada e o medo intuitivo da diretora, talvez, os espectadores não teriam a chance de assistir este exemplar do novíssimo cinema brasileiro. Roberta Marques comprova que é audaciosa, porque inclui na trilha sonora, nada mais, nada menos que a música da cantora Cat Power. Imagine o valor dos direitos autorais? Não é só por isso. Os atores conectam-se pelo texto transpassado em diálogos de filosofia cotidiana e coloquial – tendendo ao estilo comportamental típico do lugar em que o filme se passa, desencadeando a naturalidade instantânea – e pelas reações expressivas, como o olhar sensual puro (sedutor sem ser vulgar) e o dente separado de Zizi; a hiperatividade sonhadora de Rânia (contido na medida certa); e o olhar solidário medroso de Estela (necessário e indutor). Além do elenco, a parte técnica é um caso à parte, principalmente  o som (música e edição) e a fotografia. Respectivamente, o primeiro ficou a cargo de Bernardo Uzeda, que conjugou como um maestro as sutilezas do que se ouve. O espectador precisa estar em total silêncio para que possa usufruir das inserções da trilha sonora existencialistas, tendo ruídos, músicas e diálogos um produto único), como exemplo, reparem nas cenas: uma quando Rânia conversa com Zizi nas pedras do mar; e a entrada da música da boate (arrepia facilmente, ora eletrônica, ora clássica no pole dance). A fotografia extraordinária fica por conta de Heloísa Passos (de “Viajo porque preciso, Volto porque te amo”, “Amor?”, “O Amor Segundo B. Schianberg”, “Lixo Extraordinário”), que mescla seus trabalhos realizados, gerando a poesia concretista (urbana) da imagem digital, quase documental, com câmera próxima e intimista, motivando perdas contemplativas de foco cinematógrafico. Em hipótese nenhuma, poderemos ser utópicos radicais e nacionalistas ferrenhos. Falhas existem sim. A estrutura narrativa quebra o ritmo em vários momentos durante a exibição, mitigando o equilíbrio contextual, que se explicita pela elipse temporal, que às vezes “solta” personagens coadjuvantes, esquecendo-se da exata atmosfera do retorno. Mas voltando à positividade satisfatória, o roteiro expressa amadorismo proposital, deixando a vida acontecer pelas próprias ações diárias, como beber água, tomar banho no mar e os ensaios coreografados (de gênero vídeo-dança).  Rânia tenta sobreviver como qualquer menina de seu lugarejo: ajuda a mãe na costura, vende esmaltes e ouve Madonna. O roteiro estimula a questão do sonho versus o dinheiro. Um acontece pela manhã, o outro na madrugada. “Rânia quer dizer rainha da Jordânia”, diz. Ela rebate “Ainda existe rainha?”. “Danço para afastar coisas ruins dentro de mim, que só param quando eu danço”, finaliza, complementando, “Friozinho na barriga. Não sei se é medo ou coragem, salgada ou seca”, estas duas últimas servindo também para definir a linha da narração permeada. Concluindo, um filme sincero, despretensioso, verdadeiro, que tenta retratar os anseios, dúvidas e sonhos de uma jovem, que aos poucos vai sendo consumida e sugada pelo meio ao redor. “Uma forma que você precisa tirar. Olha pra baixo. O Abismo”, traduz simbolicamente a arte ficção da metalinguagem no próprio universo fílmico. Além de participar da competição oficial do Festival de Roterdã em 2012, venceu também a Première Brasil – “Novos Rumos” no Festival do Rio, em 2011. 

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