Até onde um diretor pode ir para encontrar seu filme?

Por Fabricio Duque

“A Busca” representa a estreia na direção de longa-metragem do paulista Luciano Moura (que realizou os telecines “Filhos do Carnaval” e “Antônia”). É um projeto audacioso por causa da premissa de road-movie existencial e por “entregar” toda responsabilidade de condução ao ator Wagner Moura (o Capitão Nascimento em “Tropa de Elite” e de “O Homem do Futuro”). Em hipótese nenhuma critico a atuação deste protagonista, o que corroboro é que a narrativa cinematográfica exige demais dele. São muitas nuances e camadas sentimentais. O diretor não mediu esforços a fim de satisfazer sua visão fílmica. Basicamente, a história é simples. O filho some e o pai aventura-se em achá-lo. Porém, a metáfora, inicialmente implícita, ao longo do filme explica demais o que deve ser sutil. A “busca” do filho de se encontrar no meio de um mundo estranho e vazio (aos jovens) faz com que seu pai redescubra pendências paternas, configurando-se como “filme círculo”. Talvez, a ansiedade de Luciano em querer inserir a maioria de elementos pensados e projetados – mesclando o comercial com o quase documental – tenha impedido o equilíbrio conjugado do amadorismo ingênuo e a necessidade do profissionalismo técnico, mesmo tendo por trás a produtora O2 Filmes, de Fernando Meirelles. Os diálogos também andam na corda bamba (repetitivos de pergunta e resposta), entre o clichê sentimental e a naturalidade improvisada (geralmente vinda de Wagner, do ator Brás Antunes, o filho na ficção e do ator veterano, Lima Duarte). Três gerações que tentam salvar arduamente a nova “cara” do cinema nacional. A narrativa busca direcionar o espectador pelos detalhes em camera lenta, ao intercalar o presente com o passado, como por exemplo, a figura da cadeira (que serve de simbolismo de conexão). “Na dúvida, desista”, lê-se na camisa do pré-adulto coadjuvante, mostrando a desconstrução da família por outro detalhe: a piscina. “A questão é sempre outra”, diz-se. O roteiro questiona a atual criação dos filhos pelos pais, discutindo se liberdade demais pode ser prejudicial à formação como indivíduo social (já que cada vez a individualidade exacerbada projeta caraterísticas de alienação). A trama cria a tensão da “Busca”, fornecendo pistas desencontradas e surreais – como a adoção de um cavalo, transformando quem assiste em personagem coadjuvante, porque recebe a informação ao mesmo tempo do protagonista, tendo a mesma dúvida e ou certeza. Filosoficamente, quanto mais eles viajam procurando por si próprios, mais encontram outras pessoas, gerando mudanças significativas pré concebidas. As situações inusitadas do acaso é o mote do filme, apresentando drogas, vivências, comunidades carentes, estrada, solidariedade,  simplicidade, amizade, firmeza dos princípios éticos e morais, incluindo um parto de uma criança (que nasce limpo). A fotografia, saturada ao brilho amadeirado, competente e já conhecida do argentino Adrian Teijido (de “O Palhaço” e “Gonzaga – De Pai Pra Filho”) anexa a beleza pueril e interiorana, captando a paisagem naturalista com o sofrimento da alma, superexpondo o que se vê. Concluindo, um filme que enquadra-se na categoria comercial, usando elementos novelescos com a estrutura cinematográfica). Atinge o público que “busca” a diversão com um toque a mais, aquele que sai do gatilho comum, mas não se afasta tanto da obviedade. Um bom filme. Como disse, audacioso e ousado. Talvez, dirão as más línguas que a pretensão assombrou o diretor Luciano Moura. Eu não disse nada. Escolho a opinião da ingenuidade apressada e ansiosa da pressão por realizar o primeiro filme. E como sempre, Wagner Moura rouba a cena. Inicialmente o filme se chamaria “A Cadeira do Pai”. Este inclusive foi o título com o qual foi divulgado no Sundance Film Festival de 2012. Posteriormente o título foi alterado para “Até o Fim do Mundo” e, enfim, foi definido como “A Busca”. As filmagens foram realizadas durante seis semanas nas cidades de Paulínia, Campinas, Ilha Comprida, Iguape e no litoral paulista. Em 2012, ganhou o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular no Festival do Rio. 

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