A Batalha Quase Impossível do Otimismo
Por Fabricio Duque

“Rebelle” ou “War Witch” é o filme escolhido pelo Canadá para concorrer a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2013, e que provavelmente receberá a tradução de “A Feiticeira da Guerra” (vinda da parte inglesa), devido a nacionalidade franco-canadense.  Aborda o tema da guerra civil da África Central, expondo a realidade nua e crua de crianças recrutadas por rebeldes “sem coração” (a maioria também crianças). A protagonista Komona (interpretada por Rachel Mwanza – que também deveria ter sido indicada ao Oscar de Melhor Atriz) é uma adolescente que inicia o filme narrando, em tom de carta direcionada à filha, que ainda se encontra em seu ventre, os acontecimentos sofridos de sua vida, desde o rapto pelo exército “revolucionário”, quando ainda tinha doze anos . Se analisarmos a pequena filmografia do diretor Kim Nguyen (com apenas quatro longas-metragens), perceberemos então a recorrência do tema ecumênico (espiritual em “Le Marais”), catastrófico (em “Truffe”)  e psicológico (a loucura em “La Cité”, com  Jean-Marc Barr). Em “Rebelle”, há conjugação destes elementos pelo viés personificado de uma imaginação pretendida ao otimismo, simbolizando por planos detalhes, existencialistas, contemplativos, analíticos e de   retratação direta e incisiva do cenário trabalhado, logicamente, dentro da limitação técnica, que provavelmente o diretor passou para que pudesse finalizá-lo. “Não sei se depois que você sair do meu ventre, a vida me dará forças de te amar”, diz-se com o realismo típico daquele sofrimento, mas apresentado com tom suavizado, por causa da voz doce, seca, resignada e hipnótica da narradora-protagonista. A forma buscada foi introduzir o espectador à trama (o “obrigando” a sentir também exatamente os “perrengues” que a personagem passa) pela câmera intimista, na mão, acompanhando como personagem, quase documental (esta uma tendência no cinema independente atual – tentar estreitar o hiato entre ficção crível e exacerbação do elemento factual). O treinamento de Komona inclui aprender a usar o rifle, mas ela recebe um “presente” (visões de “fantasmas” que indicam o caminho certo). Assim, transforma-se em “bruxa”, que despertada pela “seiva mágica” (a droga presente na floresta), muda a percepção sobre as coisas ao redor, descobrindo a paixão em outro “mandingueiro” (o ator Serge Kanyinda), chamado de Mágico, e a calma da felicidade. Os mortos, meio zumbis de seiva, podem significar a metáfora do renascimento e do afã da liberdade. O “abrigo” deles vem pelo simbolismo da crença em algo (tanto faz abstrato ou concreto – o galo branco, por exemplo), já que a pureza foi destruída. Sem contar com a própria dignidade, aceitam o desafio da sobrevivência pela submissão e obrigação. Comportam-se como miseráveis (albinos ou não) do novo tempo, explícito na cena do “atropelamento”. Destaque para a beleza da cena dos três na moto. Concluindo, um filme que transpassa acreditar na vida acima de todas as circunstâncias negativas do caminho, principalmente pelas interpretações dos atores, que usam o tempo certo para ações, reações e diálogos, impedindo que qualquer traço de clichê e ou gatilho comum aconteça. E que respeitar os simbolismos ecumênicos (com “leis” próprias criadas ao bel prazer)  “limpa” a alma das pendências da existência. 

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