As Bestas Imaginárias do Sudeste Selvagem
Por Fabricio Duque
A inerência idiossincrática da vida nos mostra que é impossível definir o porquê das manias de cada um, visto que não sabemos explicá-las, como na música “Mania de Você”, isto é parte do que somos. Este preâmbulo digressionado, é como busco explicar uma de minhas manias – que já ressaltei em algumas opiniões, a de quando aprecio muito um filme, demoro a transpassar percepções, porque, sinto que ao fazer isto, possa mensurar a quantidade do meu gostar, o limitando. “Indomável Sonhadora” é um exemplo. Com a crítica atrasada desde o anterior Festival do Rio, impulsiono minha obrigação pela indicação do longa-metragem ao Oscar deste ano. O filme é uma adaptação da peça “Juicy And Delicious” da autoria de Lucy Alibar, que ajudou o diretor americano, de Nova Iorque, Benh Zeitlin, em sua estreia em longa-metragem, a escrever o roteiro para o filme. E ainda conta no elenco com a atriz mirim, Quvenzhané Wallis, que está concorrendo ao Oscar deste ano de Melhor Atriz, sendo a mais nova (com nove anos de idade) a receber uma indicação. Aos cinco anos, a americana Quvenzhané (que quer dizer “fada” em Swahili) teve que mentir sobre sua idade para o teste de seu primeiro papel, como a protagonista Hushpuppy, que nasceu no estado de Louisiana, assim como mais da metade do elenco coadjuvante. Considerado o filme “fofo” da lista escolhida pela Academia, esta definição não poderia estar mais equivocada, porque o roteiro busca transpassar a crua realidade, em uma fotografia suja e visceral, para que pudesse retratar a conservação da pureza fantasiosa e infantil dentro da trajetória necessária da sobrevivência. Podemos referenciar a dois filmes. Um deles é a “Vida é Bela”, só que ao contrário. O outro é “Onde Vivem os Monstros”, com a diferença que a realidade (superexposta) sobrepõe a metáfora poética. No exemplo do diretor Spike Jonze, a imaginação suaviza a existência, fornecendo alternativas possíveis de fuga psicológica. Aqui, o pai da personagem principal realiza o treinamento inverso do longa-metragem (que retirou o prêmio de “Central do Brasil” no Oscar). “A Indomável Sonhadora” configura-se como integrante de um gênero cinematográfico, que usa a pobreza miserável como fio condutor da trama, que nada mais quer, do que um final feliz sem os clichês característicos. Não podemos limitar a uma única forma as infinitas possibilidades de se criar uma criança. Precisamos colocar no “jogo” inúmeras determinações sociais, como as regras subjetivas da criação, o meio em que se vive, a influência política (externa e interna), a personalidade do “próximo”. Porém, o pai de Hushpuppy, por estar doente (mas sem querer ajuda médica), ensina a filha a auto-existência suficiente, com extremada radicalidade. Nestes ensinamentos, a única ajuda possível era unicamente a dela. Comer com garfo e faca? Não, porque, em algum momento, isto poderia não existir. A solução era comer com as mãos. E a recorrência de privações não cessam. Combatia-se a tempestade com um “barco banheira”. Sem desejar  acreditar no negativismo da vida, ela busca a imaginação otimista – felicidade desmedida (criando um ninho de passarinhos e ou conversando com galinhas), mesmo nos piores momentos e com a obrigação de se manter forte todo tempo. A narrativa, impulsionada pela fotografia saturada ao brilho, insere percepções sobre os moradores do local, isolada às margens de um rio, parecendo “o mundo perdido” de uma vida primata. “Se papai me matar,não serei esquecida”, diz-se com sincera sinestesia. O espectador clama por brechas suavizadas na trama, mas não consegue, mantendo-se o equilíbrio até o final, resultando no ponto mais importante do filme. É sincero, despretensioso, verdadeiro, crível, comportando-se como um documentário ficcional, principalmente pela cumplicidade dos atores (com o tempo perfeito de ação e reação). A protagonista aprende a conjugar a pretendida desistência com a resignação da resiliência, e assim formar seu caráter. “Se uma peça se quebrar, todo o universo se desmorona”, diz-se. Podemos traduzir como uma fábula atemporal do realismo fantástico, quase um exemplar amador de live action, que simboliza as prisões mentais (protetoras) de uma metáfora fatalista do “possível” fim do mundo (deles). O pai diz “Você é um animal”, intrinsecamente uma “besta” humana, por experimentar o instinto da próxima ação mundana que só a vida pode oferecer. São miseráveis, esquecidos, o lado “podre” da sociedade, o “monstro” que deve desaparecer, como moradores da real “caverna sem luz de Platão”. Sem perspectiva de futuro, a imaginação salva a crença de que tudo dará certo. Que depois da tempestade vem sempre a bonança, e que a trajetória vivida significa a transposição do medo destas “bestas”, personificadas em animais gigantes e temerosos. Concluindo, um filme impactante, visceral, muito bem construído, que escolhe o amadorismo proposital a fim de imergir o espectador na história de uma garota que tenta sobreviver sem mitigar a verdadeira e otimista essência. Dividindo opiniões, o filme coleta prêmios pelos lugares que passa. Vencedor dos prêmios Fipresci Prize – Um Certain Regard, Golden Camera, Prix Regards Jeune e Prize of the Ecumenical Jury – Menção Especial no Festival de Cannes; Troféu Sutherland do British Film Institute Awards; e do prêmio de Fotografia e do Grande Prêmio do Júri – Drama no Festival de Sundance. 

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