A Novela De Um Mestre do Suspense Sem Suspense
Fabricio Duque

“Estilo é o plágio de si mesmo”, diz-se durante o filme “Hitchcock”, sobre a vida do “mestre do suspense”, em um período específico: o processo de criação de “Psicose” até as artimanhas da distribuição nos cinemas. O diretor deste filme, Sacha Gervasi, um estreante no gênero ficcional (tinha feito apenas o documentário “Anvil”, e escreveu o roteiro de “O Terminal”, de Steven Spielberg) usou a frase inicial talvez para que pudesse embasar o porquê de ter realizado este longa-metragem sem a esperada prática cinematográfica, reverberando nos cinéfilos como uma afronta pela falta de “ousadia”. A narrativa apresenta-se extremamente comum, recheada de clichês e gatilhos comuns e de uma “preguiça” que contrasta com a personalidade do “mestre” que assumia riscos. É inegável que precisamos abordar questões da filmografia de Alfred Hitchcock. Mas não o farei, até porque toda obra de ficção busca no “objeto” pretendido o que se deseja transpassar. Mesmo com um elenco de nomes renomados, como o elenco principal, Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, o roteiro, que se baseia no livro de Stephen Rebello, “Alfred Hitchcock And The Making Of Psycho” (filme este que também teve origem do livro de Robert Bloch, que Hitchcock comprou anonimamente os direitos e “mandou recolher das livrarias as cópias existentes), então, repetindo, o roteiro não consegue engrenar, talvez por “medo” de Sacha e por conhecimento prévio da máxima popular, que diz  ser muita areia para o seu caminhão. A estrutura configura-se com tom novelesco, caricaturas nas expressões, principalmente na metalinguagem da filmagem, e com a facilidade de se resolver os conflitos sem respeitar a inteligência de quem assiste. Seria pretensioso, se não soasse tão infantil e ingênuo. Se o diretor de agora queria retratar fielmente os anos 60, utilizando-se da artificialidade teatral, então necessito dizer-lhe que esta abordagem não está correta. O filme, perdoe-me a franqueza, mas que talvez possa ajudar ao “pseudo” cineasta, deveria ser feito como série de televisão, por explicitar uma forma comercial e tendenciosa ao comodismo contextual. Mas nem tudo está perdido. Os quinze minutos finais são fantásticos, e por si só, já vale cada centavo e os 75 anteriores (sem querer contar, apenas por alto, refere-se à cartilha da exibição nos cinemas). Hitchcock é representado como um Deus, sem falhas, revertendo as manias a seu favor e sucesso. Sacha inclui a apresentação inicial e final que o diretor famoso fazia  nos filmes; indica características já conhecidas; e passeia como um adolescente apaixonado motivado pelo desejo radical de “limitar” um mito na tela. A frase lá de cima diz respeito ao filme “Cassino Royale”, que Hitch (carinhosamente chamado) atestava que seria uma cópia de “Intriga Internacional”, seu filme anterior. Outra crítica universal é sobre a maquiagem (indicado ao Oscar 2013) do personagem principal. Não é a das melhores, mas convenhamos, ninguém percebe que quem é o ator é Anthony Hopkins. Há informações definidoras do livro “Psicose”, como “diabolicamente divertido, com voyeurismo, travestismo e incesto”. “Experimentar novas formas de fazer cinema, assumindo riscos”, dizia, tendo, no filme, tantas outras colocações hitchcockianas. O final (esquecendo a literalidade do final feliz da última cena), como disse, cria maestria e é explicado anteriormente em palavras, “Estou apenas observando. Minha câmera dirá a verdade absoluta”. Concluindo, um filme novela, com clichês característicos do gênero de se homenagear alguém, que se utiliza do humor adocicado, unilateral e moralista, esquecendo das próprias palavras de Hitch que procurava sempre “um roteiro bom, claro e pouco sórdido”. Talvez, o diretor estreante necessite buscar informações com cineasta francês François Truffaut (que entrevistou o “mestre” e o levou decentemente a França). Talvez, o estúdio não queria “queimar” a imagem do ídolo. Só sei, que as impressões sobre este filme não atendem nem a gregos e nem a troianos, nem a cinéfilos, nem ao grande público, logicamente, corroboro, os quinze minutos finais (este tempo sim, completa a minha satisfação da trama apresentada). “Psicose” custou 800 mil dólares e faturou 50 milhões de dólares nas bilheterias do mundo inteiro. Foi escolhido como 11º melhor filme de todos os tempos e o melhor do gênero horror pela revista Entertainment Weekly.

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