O Julgamento Alheio dos 
Limites de Cada Um

Por Fabricio Duque

“O Voo” apresenta-se como o mais recente filme do diretor americano de Chicago, Robert Zemeckis, famoso pelo sua filmografia que inclui a trilogia “De Volta Para o Futuro”, “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, “A Morte Lhe Cai Bem”, “Náufrago” e, o melhor de todos, “Forrest Gump – O Contador de Histórias”. Se analisarmos a carreira de Zemeckis (declaradamente seguidor da estrutura cinematográfica de Steven Spielberg), poderemos detectar um ferrenho nacionalismo, dotado de características naturais americanas, como o efeito nas ações e nas reações. A palavra clichê significa recorrência, quase repetitiva, de mesmos elementos empregados em uma percepção espacial do comportamento da abordagem específica. Entender que os americanos, por definição própria, influenciam-se pela referência recebida, é captar a essência do cineasta em questão aqui: retratar em tom de melodrama o tema escolhido, principalmente pela música incidental extremamente sentimental e emotiva, neste caso de Alan Silvestri (que também fez “Forrest Gump”). A narrativa de “O Voo” configura-se unilateral, buscando a moral americana pelas falhas individuais do ser humano e “lutando” contra o “mal” das bebidas, das drogas e das consequências que o uso destas substâncias podem ocasionar. Outro tópico que devemos observar é o estudo dos limites que cada um possui e como consegue lidar. É muito relativo mensurar, por exemplo, a quantidade de bebida necessária para que o organismo adultere a visão sobre as coisas. Cada fígado “recebe” o líquido de uma forma, logicamente, diferente do outro, figura esta, que é traduzido neste filme como o julgador alheio. Não importa o quanto se faça com o intuito de “salvar” a positividade de um resultado, sempre haverá a condenação pelo que não foi feito. As regras são, ao passar dos tempos, mais e mais radicais ao politicamente correto. A roteiro, de  John Gatins, reitera a redenção individual e oferece a quem assiste a previsibilidade presente na personalidade da América: a hipocrisia, desencadeando a condução a “pseudo” perfeição, plastificando reações humanas. A história basicamente apresenta um experiente piloto de avião, Whip Whitaker (vivido pelo ator Denzel Washington, de “Filadélfia”, “Tempo de Glória” – entregue como sempre aos seus papéis, com sua altiva autoridade interpretativa), que sem dormir e tendo bebido e usado drogas, realiza o voo como sendo qualquer outro. Mas por uma  (possível?) falha técnica, precisa “colocar em ação” suas qualidades profissionais, e assim salva quase todos, tornando-se um herói. Porém com a investigação pós acidente, e a constatação de alguns mortos, percebe-se que este “salvador” não era santo e sim um fanfarrão assumido (dependente químico por sofrer as mazelas da vida). O diretor repete o Live Action, presente em muitos dos seus filmes (exemplo de “Náufrago”). O recurso cinematográfico utiliza-se da animação pelo método da captura de movimento, personificando a sensação da tragédia como personagem principal, interagindo com atores reais. É inegável a maestria da cena do acidente (e que definitivamente merece ser vista na tela grande). Contracenando com o protagonista, temos Kelly Reilly (de “Bonecas Russas”, “Sherlock Holmes”, Don Cheadle (de “O Guarda”, “Homem de Ferro 2”) e John Goodman (de “Argo”, “Arizona Nunca Mais”), entre outros. O trio, mais relevante, encontra-se em núcleos diferenciados de narrativa. Respectivamente, o drama das drogas, a literalidade da lei e o humor escrachado (“chocando” por confrontar a realidade no seu estágio mais puro – será? – tendo o “hino” dos Rolling Stones, “Sympathy For The Devil”). Talvez essa seja a sua “criptonita”. Incluir elementos abrangentes a fim de capturar gregos e troianos, mesmo tendo o conhecimento de outra maestria do diretor, que é saber contar uma história linear, sem deixar brechas, nem respostas. Caro espectador, faça o teste ao assistir.  Vista-se da possibilidade de ser um indivíduo americano e tente acertar as reviravoltas da trama, porque é fato o fator da previsibilidade, usando e abusando dos gatilhos comuns, principalmente na cena final, que explicita a supremacia da cultura americana e com a sua máxima do ‘erramos, mas aprendemos com nossos erros’. Concluindo, um típico filme exemplar de transposição à tela das características nacionais do longa-metragem. Em hipótese nenhuma, posso dizer que o filme é ruim e ou mal construído, o que bato na tecla é a estrutura comum da narrativa, que não quer fugir da “fórmula de sucesso”, para que com isso vença alguns prêmios no Oscar. Sutilmente, bem lá no fundo, há, a quem consiga interpretar, uma crítica acirrada a esta hipocrisia, percebida na cena em que uma droga equilibra o efeito de outra. Como disse, um filme indicado a gregos, troianos, nacionalistas ou não, e aos que comentaram no final da sessão “Medo de andar de avião agora”. Esse é o grande “lance” do cinema. Despertar individualmente os limites aceitáveis de cada um. 

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