A Evolução Perpétua dos Sonhos Esquecidos

 
Por Fabricio Duque

“O segredo é capturar o público no início do filme e deixá-lo ir no final”, disse o cineasta alemão Werner Herzog durante a aula magna que ministrou ano passado no Centro Cultural Banco do Brasil (leia aqui a íntegra da matéria). As colocações didáticas do diretor de setenta anos – conhecido pelas obras “Fitzcarraldo”, “Nosferatu”, “O Sobrevivente” (com o ator Christian Bale), “Vício Frenético” (com Nicolas Cage), entre tantas outras que necropsiam a alma humana, o que é o caso de “O Homem Urso” e “Into the Abyss” –  ratificam a sua  característica marcante de seu cinema, que é a busca pelo ser humano, tentando entendê-lo pela própria natureza, principalmente quando o próprio realizador imprime seu tom indicativo como narrador. O filme em questão, “Caverna dos Sonhos Esquecidos”, permite ao espectador vivenciar plenamente a experiência de se visitar o interior da Caverna Chauvet, no sul da França, descoberta em 1994 e “protegida da respiração dos visitantes comuns”. O diretor conseguiu o acesso (sempre negado a outros cineastas) para conhecer, “explorar” de forma cinematográfica e transmitir ao público as sensações presentes e “vigiadas por espíritos ancestrais” imagens em movimento das pinturas rupestres mais antigas que se tem conhecimento. A opção pela tecnologia 3D intensifica a absorção do conteúdo abordado, fornecendo a comodidade de quem assiste tornar-se parte integrante da equipe sem sair da cadeira de cinema. A câmera desencadeia a profundidade das cenas internas, gerando a imersão quase claustrofóbica. É cinema sensorial que se conta pela linha paleológica, antropológica, histórica, não deixando de lado, habilidades idiossincráticas como olfato (na figura de um especialista em perfumes), e tampouco o silêncio auditivo, a fim de “ouvir” o que a caverna tem a dizer ou os “batimentos do coração”. Herzog busca também a simplicidade filosófica, porque passa a bola ao espectador para que tenha suas conclusões. “Precisamos sair da caverna para que possamos entendê-la.”, diz-se sobre conhecer outras culturas, claramente uma alusão à teoria da “Caverna”, de Platão. Acelerando ao final, podemos detectar na cena dos crocodilos albinos, uma explícita referência à plastificação evolutiva do ser humano (também servindo para que o diretor pudesse “deixar o público ir”, quebrando o equilíbrio narrativo, como um corte brusco a fim de perpetuar a experiência apenas “dentro” da tela do cinema, resultando em uma metafísica existencialista desta visitação “permitida”. Retrocedendo, é inevitável o lado acadêmico, por exemplo observado ao traçar definições sobre a humanidade. O filme quer retratar também as possibilidades de comunicação que outros humanos tinham na época passada, há 32 mil anos. Estes seres conviviam com animais, geleiras, solidão, e precisavam da catarse urgente de documentar o que se encontrava ao redor e o que pressentiam (pintando com qualidade técnica e amadorismo, usando camadas visuais e imprimindo elementos quase holográficos de tão realistas). Um entrevistado disse “O que os antepassados fizeram, você está fazendo agora com essa câmera”, sobre Herzog perpetuar os “sonhos esquecidos”, criando o paralelo da evolução comportamental dos indivíduos e “abusando” da tecnologia que tem acesso, com seu próprio equipamento 3D, aproveitando-se dos enquadramentos já presentes nas imagens intrínsecas da caverna. O bisão pintado com oito pernas dá a sensação do movimento, exemplo para se defina a expressão “Proto-cinema”. A narração de Herzog  é quase hipnótica ao contemplar a arte paleolítica e seus criadores. Concluindo, uma aula de “acesso restrito” que o espectador “ganha” ao assistir. O documentário mostra também a paixão em não deixar morrer o passado e não esquecer daqueles que sonharam em imagens calcitas, lembrados e “estudados” por entrevistas com profissionais da paleontologia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados