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A Evolução Barulhenta do Espaço Nosso de Cada Dia

Por Fabricio Duque
 
Uma das minhas idiossincrasias  mais marcantes, não sei se boa ou ruim, é que quando aprecio demasiadamente um filme, o rumino tanto, que demoro a traçar linhas analíticas. Ao ter sido confrontado em definir “O Som Ao Redor” em uma palavra, respondi “Perfeito!”, traduzindo a mesma sensação de quando o assisti durante o Festival de Rio do ano passado. Citando o crítico de cinema do jornal O Globo que disse para sempre embasar o subjetivismo, dei-me conta que o “desafio” estava mais que atrasado. A palavra definidora de antes merece uma análise detalhada, técnica e especialmente filosófica. O longa-metragem em questão aqui integra o Novíssimo Cinema Brasileiro, vindo principalmente do estado pernambucano da Região Metropolitana de Recife, e segue pelo realismo cotidiano de ações e percepções dos indivíduos que participam de uma sociedade compartilhada. A máxima “O meu direito começa quando o seu termina” encaixa-se como uma “luva” no embasamento requerido. O “novo” gênero busca a naturalidade do dia-a-dia, com os típicos ruídos barulhentos ao redor (cachorros latindo, obras acontecendo, diálogos exaltados, gritos infantis, buzinas etc) e com a “perda da liberdade condicional”, devido à falta da segurança (necessitando-se de uma “milícia” de seguranças – despreparados e corruptos), gerando o  enclausuramento. A vida atual “evolutiva” criou verdadeiros “resorts” prediais. As pessoas que lá vivem podem “usufruir” de toda comodidade dos serviços como piscina, lavanderia, garagem ampla, porém com o agravante das grades “protetoras” de “prisões” de luxo. Mas a tentativa de plastificação comportamental não atinge resultados esperados, nem positivos, porque, obviamente, cada um pensa de uma forma, consequentemente agindo da mesma maneira que pensou. São “infinitas” projeções mentais e vontades, alimentadas por uma mídia voraz, eficaz e com muita fome. O querer dominativo encontra seguidores, que experimentam a existência, ganhando pacotes completos de opiniões formadas e desejos estimulados. Não poderia ser diferente. E aí que se explicita a característica marcante deste “cinema novo”. Transpor, sem pretensão de ser, apenas da retratação visual, dando aos personagens a “honra” de se poder julgar o outro, porque a figura do “próximo” é o papel que os atores decidiram interpretar, dividindo o espaço co-dependente, que é o próprio universo antropológico (e quiça antropofágico – tendo a inveja, a ostentação, o preconceito, o julgamento desenfreado, a vingança, atitudes extremas, opções radicais, a mitigação de limites, a prepotência com ou sem poder, a fuga da mesmice instantânea, esta última impulsionando o lado mais primitivo da excentricidade, toda essa sequência antecedente faz um ser social simbolicamente “consumir” o outro, o sugando como um alimento vampiresco, assim o mata, o poda e o extermina do mais puro e decente fundo sentimental que se pode encontrar no ser humano). Eles possuem o “sonho” da paz, mas a vida só entrega-lhes a bagunça e um intrínseco caos. Aos poucos, o pouco de paciência transforma-se no muito de raiva guardada, destruindo o que se realmente é, projetando literalmente um “monstro” domado que pode ser acordado a qualquer momento. É com este temor que a narrativa do filme se agarra, mostrando uma tensão constante de que algo irá acontecer, mesmo nada. O diretor Kleber Mendonça Filho (que já mostrou uma prévia de “O Som ao Redor” no seu curta-metragem “Recife Frio”, de 2009, também roteirista deste filme, enveredou por um outro tema: a relação de patrão e empregado, soando às vezes um retrocesso escravocrata. E para que essa naturalidade fosse crível, escolheu um elenco à altura, principalmente Irandhir Santos (de “A Febre do Rato”, ” Tropa de Elite 2″), Maeve Jinkings (de “Boa Sorte, Meu Amor”) e Gustavo Jahn (de “Os Residentes”), até mesmo os não-profissionais, desferindo diálogos humanizados com total falta do clichê e da teatralidade, apresentando-se secos, diretos, verdadeiros (sem papas na língua), silenciosos e exagerados quando se precisa ser. Quanto aos prêmios em Festivais de Cinema, provavelmente listaria umas duas folhas. Como diz o popular “Sucesso por onde anda”, foi escolhido como um dos melhores filmes pelo New York Times. Concluindo, peço ao espectador-leitor permissão para corroborar a definição adjetivada do início: perfeito! e acrescentar que é uma poesia realista da vida moderna.

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