A Bipolaridade da Lula e a da Baleia

Por Fabricio Duque

Há duas coisas que o espectador necessita saber previamente à decisão de assistir a “O Lado Bom do Vida”. Uma delas é que este filme não representa uma comédia romântica (como está sendo vendido e até mesmo vencendo a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante de Comédia / Musical para Jennifer Lawrence no Globo de Ouro deste ano) e a outra, relacionado com a tradução do título clichê de auto-ajuda. O original “Silver Linings Playbook” indica a metáfora do otimismo, gerada de uma frase comum americana “Every cloud has a silver lining (Toda nuvem tem um “fundo prateado”), dita, inicialmente, pelo poeta inglês John Milton em 1634. E “playbook” é o livro de jogadas de cada equipe no futebol americano. O que o diretor, que também escreveu o roteiro, David O. Russell (de “Três Reis”, “O Vencedor”) quis abordar é a bipolaridade das reações psíquicas quando confrontada a tragédias (a morte de um marido e ou a traição de uma esposa). A narrativa apresenta-se verborrágica, agitada, ansiosa e desesperada porque personifica em tela a loucura (sentimentos internos) dos personagens. Cria-se uma atmosfera de fracasso resignado e de desejo do estágio atual, tudo ao mesmo tempo. Aos poucos, entendemos que as pessoas retratadas possuem particularidades (quando torce para um time, por exemplo, usando da figura de um lenço velho a superstição da “mandinga” pela vitória), manias, transtorno obsessivos, opiniões surreais, idiossincrasias, por aí vai. Então, como mensurar e quantificar a loucura que cada um imprime nas individualidades? Perder o controle, estar eufórico em um determinado momento, para logo depois chorar copiosamente de depressão. Não se pode explicar. Cada caso é um caso. Inicialmente, encontramos Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper, de “Se Beber Não Case”, “Sem Limites”) em um hospital psiquiátrico por causa da crise agressiva ao descobrir que sua esposa o estava traindo. A mãe (Jacki Weaver, de “Reino Animal”) vai buscá-lo. Assim, o espectador é mergulhado nas neuroses, agitações, hiperatividades do protagonista, que discute Hemingway, às três da manhã, com o pai (Roberto De Niro, que já contracenou com ele em “Sem Limites”), que corre com um saco de lixo e que conhece Tiffany (Jennifer Lawrence, de “Inverno da Alma”, “Jogos Vorazes”), que perdeu o marido e que também não consegue lidar com o sofrimento. Aos poucos, eles se ajudam, tudo sem o clichê característico de um gênero comédia romântica. O roteiro não julga a “loucura”, apenas a retrata, tentando mitigar a hipocrisia e a falta de entendimento que se tem sobre tudo. Concluindo, um filme equilibrado, com interpretações contidas e explosivas (sem afetação), retirando os excessos e trabalhando-se com a realidade naturalista de percepção à ficção, logicamente. Com isso, há cumplicidade dos atores em cena, em diálogos verborrágicos, estranhos, agitados, dividindo espaço com a camera que tenta acompanhar a trajetória de mais uma família americana. Destaque para o momento “Dançando com as estrelas”, lembrando o filme “Vem Dançar comigo”, tudo estruturado no independente, meio “Juno”, meio “A Lula e a Baleia”, longa-metragem de 2005, título este que se refere ao painel que mostra uma lula gigante lutando contra uma baleia, disponível no American Museum of Natural History, de Nova Iorque. Recomendo. Com indicações ao prêmio Oscar 2013.

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