“Django é com o D mudo”

Por Fabricio Duque

É unânime a comprovação que o diretor americano Quentin Tarantino  (“Pulp Fiction”, “Bastardos Inglórios”, “Cães de Aluguel”) criou um gênero cinematográfico próprio e autoral, regado com violência visceral (física e psicológica), dotado de diálogos perspicazes, sarcásticos e referenciais ao momento atual. Utiliza-se no seu universo, o vintage, o retrô pop e técnicas nostálgicas de um filme B dos anos setenta, incluindo o movimento Blaxploitation (filmes de negros feitos para negros). Escrever sobre um novo “produto” Tarantino, é fácil e difícil ao mesmo tempo, visto a quantidade de metáforas, deboches e metalinguagens. Assim, não tem para ninguém. Quando um roteiro dele está concorrendo a algum prêmio (já ganhou o Globo de Ouro deste ano), os outros indicados não possuem chance, devido a sua qualidade, por retratar a realidade social de forma crua, desprovida de hipocrisia, destacando as “falhas” humanas de caráter, como preconceitos enraizados. A grande polêmica do filme em questão é a parte em que um negro abomina os outros negros e compactua com a ideia “Michael Jackson” de que é branco e que tem os mesmos direitos do lado opositor à escravatura. Explicita-se também, incomodando quem assiste, o nosso questionamento sobre nossas limitações de aceitação racial. Não se sabe exatamente qual foi o primeiro a “acordar” o xiismo da raça pura, intensificada por Hitler na Grande Guerra. O cineasta daqui usa e abusa da ironia. Conduz a história pelo Velho Oeste, na terra mais primitiva das “convicções” alienantes, desencadeadas por aquele, primeiro, que foi acordado pelo preconceito. Os negros representavam “a mão-se-obra” que os brancos nunca iriam fazer. Dominar, obrigar e mitigar a liberdade resultava na melhora da economia e na perfeita condução das regras aristocráticas. O roteiro busca a salvação, pelo radicalismo surreal, do politicamente correto e da ética humana, assim como no filme anterior “Bastardos Inglórios”, o líder alemão era o alvo, aqui, a escravidão tem o seu foco, sendo quase uma digressão em outro aspecto, mas com tema semelhante, de um outro longa-metragem, “Lincoln”, dirigido por Steven Spielberg (e já com crítica aqui no blog site). “Django”, com D mudo, apodera-se das críticas a Ku Klux Klan, que apoiava a  supremacia branca e o protestantismo, principalmente no Texas e no Mississipi, entre outros elementos degenerativos desta fase da história, e insere no contexto um dentista “Caçador de Recompensas” que convida um negro para ser seu assistente. Entre roupas com babados, flashbacks explicativos, cameras lentas, e com doses cavalares de características cinematográficas de filmes Western Spaguetti (como homenagem), a trama se autocritica, trabalhando com as duas formas possíveis de se escolher uma decisão. Antes da batalha, é fornecido ao adversário a opção mais sensata, mais justa e menos violenta. Com a negação, a história acontece com vingança esperada, tortura significativa, óculos escuros e clichê debochando do próprio clichê. Isso é Tarantino. Um elenco de peso, antenado, cúmplice, discursando de forma prepotente e verborrágica, tendo um Samuel L. Jackson irreconhecível (e todo tempo lembrando, mesmo sem querer, de “Pulp Fiction”), exprimindo o lado mais primitivo do ser humano. Não há personagens limpos, e sim gastos, com marcas, e particularidades. Como se o interno fosse personificado no visual apresentado. Diferentemente do que fiz com o filme anterior, não contarei o final, sem indicar se o vilão encontra ou não a redenção fornecida pelo “mocinho”, nem se o “pseudo” herói fica com a mulher desejada e procurada. Mas recomendarei plenamente este longa. Assim como não há filmes ruins de Woody Allen, também não há de Quentin Tarantino. É sempre over, necessário, despojado e brincalhão, principalmente quando a figura do diretor integra o elenco como ator. Há Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio e outros tão conectados (e naturais) quanto, mesmo com a necessidade de “avacalhar” as próprias interpretações.

Django (Jamie Foxx) é um escravo liberto cujo passado brutal com seus antigos proprietários leva-o ao encontro do caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Schultz está em busca dos irmãos assassinos Brittle, e somente Django pode levá-lo a eles. O pouco ortodoxo Schultz compra Django com a promessa de libertá-lo quando tiver capturado os irmãos Brittle, vivos ou mortos.

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