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Até Que Ponto chega o Amor?

 
Por Fabricio Duque
 
“Amor” configura-se como o  mais recente filme do diretor austríaco, Michael Haneke, de “A Fita Branca”, “Caché”, “Violência Gratuita”. E pode ser considerado uma explícita declaração de amor, por conduzir os votos matrimoniais (“… na saúde e na doença…”) à quintessência da literalidade, quebrando tabus sociais e invocando a mais pura realidade, que se conflitua com a imaginação do que se quer ser / ter. Assim, o espectador embarca na narrativa seca e direta da vida de um casal de idosos, que sofre as limitações e os percalços da idade. Transpassa-se a inferência de que não existe apenas flores, mas também problemas cotidianos que os assaltam diariamente. Eles, o casal, só possuem uma certeza absoluta: que se amam e que lutarão um pelo outro “até que se acabe tudo”. Uma das características definidoras da filmografia de Haneke é a forma como conduz suas histórias, fornecendo tempo da trama acontecer, para que, quem assiste, possa imergir totalmente ao que está sendo apresentado. Os planos são longos, com poucos cortes, tendo a camera, inicialmente, observadora quase proibida, e ao longo dos acontecimentos fornece ao espectador a permissão de se incluir sem opinar. Também se deduz que cada vida compartilhada se comporta de um modo específico e que plastificá-la pela normalidade social dos outros (filhos, vizinhos, alunos etc.) só a deixa mais banal e sem atrativos. Estar em um relacionamento necessita de certa cumplicidade esquisita dos gostos alheios. No filme em questão, por mais que os dois tivessem a maioria das afinidades, uma ou outra individualidade sempre pode ser o estopim inicial do tédio conjugal.  Não aqui, o qual até o gosto duvidoso por velórios é entendido – e estimulado. “Eu não me chateio nunca”, ele diz, ao conversar com a filha,  Isabelle Huppert (de “A Professora de Piano”, “8 Mulheres”), sobre as técnicas de convivência para com a esposa em estado de paralisia.  Sem revelar o final surpreendente, que arrebata o espectador, o deixando sem respirar por um momento, posso corroborar que entendemos o desfecho, mesmo com toda manipulação religiosa que a sociedade prega. É inevitável que na velhice, a saúde encontre a debilitação (e derrames), e as pessoas que a integram sofram com “futilidades” sociais. A vaidade é a maior delas. Permanecer sempre bela, “agradável” aos olhos dos outros desencadeia ações orgulhosas de “cabelo perfeito” mesmo em períodos terminais e de isquemias (sem oxigenação do cérebro, transformando os idosos na síndrome metafórica de “Benjamin Button” –  retornando à infância vulnerável dos cuidados básicos, com suas “falhas, fibras, cheiros doces e azedos, o sangue, vírus e fungos, secreções, excreções”, extraído do livro “Até o Dia Em Que o Cão Morreu”, de Daniel Galera, na totalidade das visceralidades). Se analisarmos o quesito interpretação, constataremos que o cineasta recebeu um “presente” divino. Os atores protagonistas – Jean-Louis Trintignant, vivenciando Georges, (de “De Repente, Num Domingo”, “Z”, “A Fraternidade é Vermelha”) e Emmanuelle Riva, Anne, (de “Instituto de Beleza Vênus”, “A Liberdade é Azul”, “Hiroshima, Meu Amor”) entregam-se de tal forma que a sensação gerada é a de estar num filme de Naomi Kawase, só que em ficção. É tão natural, cruel, sarcástico, possível, desafiador, agressivo e apaixonante, que o objetivo é alcançado: “chocar” sem clichês e confrontar aqueles que sempre esperam a fantasia Disney de ser, tudo “embalado” sem trilha sonora, nem nos créditos iniciais, nem nos finais, retratando o cotidiano cru, com ruídos e barulhos mundanos – e existenciais. Às vezes, a imaginação precisa vencer a realidade. E talvez não seja tão ruim assim vivenciar o próprio mundo a fim de conservar o amor que temos pelas pessoas. Cada um sabe o quanto aguenta, o quanto ama e o quanto de culpa poderá carregar. Concluindo, um filme   poético, de amor sem vergonha, incondicional, que traduz o amor pelas adversidades da trajetória de uma vida a dois. Há dois momentos que por si só já vale a investida no cinema: o tapa e o final. Imaginário ou não, realismo crônico, ou não, é imperdível. O longa-metragem ganhou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Globo de Ouro deste ano.

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