Primeira Parte da Trilogia Textual: Um Balanço do Festival do Rio 2012


Por Fabricio Duque 

Cada ano, este site confronta questionamentos. Um deles é a forma de se transmitir as opiniões sobre os filmes. Há duas possibilidades. Escrever pequenos textos, extremamente objetivos ou discorrer análises mais aprofundadas. Por lógica, a segunda opção apresenta-se muito mais convidativa. Mas devido às adversidades temporais (trabalho paralelo, votação – quem marca obrigações políticas em período de festival?, trânsito), a “infinita” quantidade de filmes a assistir, sessões canceladas ou atrasadas ou mudadas na programação, o resultado satisfatório torna-se complicado de realizar. Imagine a cena: cinco ou seis filmes por dia, do meio-dia às duas da manhã (às vezes pela manhã também) e após tudo isso ainda ter que escrever. Alguém acha justo traçar linhas opinativas se o cansaço transforma-se numa constante repetição? A pergunta retórica já explica o desfecho deste texto.
Então, seguindo o bom senso e o amor incondicional ao cinema, o Vertentes do Cinema resolveu fazer um balanço do que foi visto, e aos poucos, “lançar” opiniões completas e com maior embasamento a fim de fornecer uma melhor “crítica” aqui neste espaço.
A edição 2012 do Festival do Rio pode ser definida como o ano do DCP. Os problemas com a nova tecnologia chegou ao jornal impresso. O Globo, na figura do André Miranda, explicou como o processo funciona, incluindo suas chaves de liberação de sessão por sessão. Assim, consagramos Andrea Calls (apresentadora das sessões de gala nacional), que com paciência e desenvoltura conduziu da forma que pode, explicando e se explicando… Se os atrasos por causa disso foram recorrentes, então já não se pode mais falar na alfândega, pois o número de cópias em película diminuiu e deu lugar à digital.
Quando o Festival do Rio 2012 começou, as pessoas estavam com altas doses de estresse e irritação. Pela menor ação idiossincrática, acontecia revoltas, às vezes polêmica, como brigas pela cadeira marcada (esquecendo-se que a lei diz que ao apagar a luz, o direito sobre o lugar se perde), pedidos de silêncio (tom exageradamente agressivo) mesmo quando as vinhetas mal iniciaram. Em outros casos, algumas pessoas perderam a noção social. Muitas chutavam o assento da frente, incomodando a percepção, tantas outras conversavam todo filme, outras gritavam, outras emitiam sons, outras faziam “xixi” (literalmente). É fato que o problema “são os outros”, como já dizia o perspicaz filosofo francês Sartre. Mas nem tudo está perdido. Na sessão de “ABRIR PUERTAS Y VENTANAS (Abrir Portas e Janelas), de Milagros Mumenthaler, filme vencedor do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno 2011, um retrato argentino cotidiano sobre irmãs, estava uma mãe e seu filho de 12 anos. Ela não se importou com a nudez e o sexo contido na película. O garoto, desde cedo, foi confrontado com a arte como arte. Esta cena faz qualquer apaixonado por cinema suspirar.
Entre as perguntas à diretora do Festival do Rio, Ilda Santiago, a de que a maratona cinematográfica é cruel ou não, é óbvio o que se responde. Claro que é cruel. Mais de trezentos filmes em duas semanas, divididas em inúmeras mostras e “festivais” paralelos, como a Première Brasil, mostra John Carpenter, galas internacionais no Sesc Rio e nacionais no Odeon, fica difícil assistir tudo que se quer. Quem nunca ouviu (aquele cinéfilo fervoroso de outro cinéfilo fervoroso): “Vi o melhor filme do Festival. Você não assistiu? Acho que não vai passar mais”? Somos cruéis também, assim como a pré-equipe da maratona cinematográfica (que escolhe filmes demais) quando fazemos o “bullying” da tortura psicológica. Mas, por incrível que pareça, os cinéfilos são “abençoados” pelo Deus do Cinema e sempre damos um jeito para “correr” atrás daquele filme. A salvação principal é a Repescagem, mais uma semana de exibições.
Fim da primeira parte. Continua (referência ao novo filme de François Ozon, “DENTRO DE CASA” – imperdível).

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