Ficha Técnica

Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg
Elenco: Robert Pattinson, Samantha Morton, Jay Baruchel, Paul Giamatti, Kevin Durand, Juliette Binoche, Sarah Gadon, Mathieu Amalric, Emily Hampshire
Fotografia: Peter Suschitzky
Trilha Sonora: Howard Shore
Produção: Paulo Branco, Martin Katz
Distribuidora: Imagem Filmes
Estúdio: Prospero Pictures / Alfama Films
Classificação: 16 anos
Duração: 106 minutos
País: França/ Canadá
Ano: 2012

 

O Método Perigoso de Cronenberg

Quando a exibição, em cabine de imprensa, do novo filme de David Cronenberg, “Cosmopolis” terminou, confesso que não sabia o que tinha assistido, tamanha a complexidade, mas a sensação transmitido na tela era de genialidade cinematográfica. Perguntaram-me se havia gostado do filme, disse que sim, e então se rebateu um “Típico de você”, comentário que entrou por um ouvido e saiu pelo outro, porque sei que não é uma experiência para qualquer um, se analisarmos a filmografia de Cronenberg. Estava ansioso para fazer, a mesma coisa que o cineasta realiza em suas obras: a verborragia “vomitada” de ideias, percepções, observações sobre o comportamental humano e ou das coisas, como o dinheiro, capitalismo, religião, liberação sexual. Neste ponto, é muito parecido com o seu filme anterior “Um Método Perigoso”, que abordava a psicanálise. Já comentei aqui que possuo medo da mente fértil e sádica do cineasta em questão aqui, talvez porque consiga personificar, às vezes, humanizando, quase todas as perversões possíveis. Como exemplo, podemos citar uma cena de “Cosmopolis”, que o protagonista Robert Pattinson (o vampiro Edward de “Crepúsculo”), ainda novo, consulta um médico diariamente, fazendo exames, incluindo o do toque, ouvindo “Sua próstata é assimétrica”. Leia-se, o queridinho dos americanos sendo “dedado” e comportando-se de forma confortável. Isto é Cronenberg, quebrando tabus sociais. O diretor é um visionário, que se utiliza do cinema a fim de expor uma terapia cognitiva. E acima de tudo, ousado, pois se reinventa em cada trabalho, inserindo o novo, construindo um paralelo com a própria trama. A ousadia vem por inúmeros caminhos.
Um deles é acreditar ao escalar um ator blockbuster como Pattinson, repleto de caras e bocas óbvias e clichês. E consegue, o ator é outro “ator”, contido, entregue, apesar de achar um pouco “Matrix” demais. Outro caminho é a simplificação dos elementos técnicos. Camera estática, poucos cortes, sem complemento musical a maior parte do tempo, tudo com o intuito de indicar que o contexto – o que se diz de maneira extremamente verborrágica – é o que importa, misturando filosofia, sacadas “pop”, política, economia, transversas em uma atmosfera de estranheza e surrealismo, propositalmente perdida. Assim, mostrar um possível presente, encaminhando-se ao futuro, fútil, alienado, o qual não se sabe o que consumir, apenas que se deve consumir. É uma aula sobre o estado financeiro atual. A trama não apresenta explicações, apenas diálogos analíticos sobre os mais diversos assuntos. O protagonista “recebe” uma revelação ao desejo próprio de cortar cabelo. Esta única informação, “que traz doçura à luz”, comporta-se como o fio condutor a toda metáfora que Cronenberg usa quase como uma necropsia, baseando-se no livro homônimo de Don DeLillo.
Eric Packer (Robert Pattinson) é um milionário egocêntrico que acordou com uma obsessão: cortar o cabelo no seu barbeiro, localizado do outro lado da cidade. Para isso, o gênio de ouro das finanças terá de atravessar, em sua limousine, uma caótica Nova York que irá revelar uma ameaça a seu império a cada quilômetro percorrido.

As críticas atingem “o conhecimento geográfico pelos motoristas de taxis”, o idêntico, a paranoia atual sobre o medo de tudo, “especulações no vácuo”, a limousine por Nova Iorque, “o rato como uma unidade monetária”, enfim são infinitas referencias ao universo social. E há os coadjuvantes. Juliette Binoche é uma delas, e vivencia seu papel de forma espetacular. “A vida é contemporânea demais”, ela diz sobre a idade. “Tempo é mais erótico quando desperdiçado”, complementam-se frases de efeito, que funcionam muito bem na estrutura de “Cosmopolis”. A teoria versa sobre a “destruição forçada”, destruindo o passado e renovando o futuro. “A nova droga é o novo. Faz a dor sumir. São crianças”, diz-se. Há o rapper, entendido pela história do elevador; o confeiteiro, que usa do próprio material de trabalho para se vingar; e tantos outros. Usa-se a transgressão da igualdade. Modificar simetrias. Busca-se a salvação, completar o vazio, dentro de submundos mentais deturpados e confusos. “Estou tendo um ataque de pânico coreano”, diz-se sobre reprimir a si mesmo. E como não poderia deixar, até o cineasta coloca no roteiro a brincadeira com a realidade do ator. “Você está morto há cem anos”, finaliza-se. Concluindo, um filme denso, tenso, informativo demais, que percorre por um caminho, em que o que mais importa é o que se diz e não a explicação simétrica de nada a coisa nenhuma. Fantástico por ser difícil. Incrível por não ser palatável. Imperdível por respeitar a inteligência do espectador. Vale à pena assistir! Recomendo.
O Diretor
David Paul Cronenberg (Toronto, 15 de Março de 1943) é um cineasta canadense. Há uma estrela de David Cronenberg na Calçada da fama do Canadá. Ganhou o Urso de Prata, no Festival de Berlim, por “eXistenZ” (1999) e o Prêmio Especial do Júri, no Festival de Cannes, por “Crash” (1996).
Filmografia
2012 – Cosmopolis
2011 – Um Método Perigoso (A Dangerous Method)
2007 – Senhores do Crime (Eastern Promises)
2005 – Marcas da Violência (A History of Violence)
2002 – Spider – Desafie sua Mente (Spider)
2000 – Camera
1999 – eXistenZ (eXistenZ)
1996 – Crash – Estranhos Prazeres
1993 – M. Butterfly (M. Butterfly)
1991 – Mistérios e Paixões (Naked Lunch)
1988 – Gêmeos – Mórbida Semelhança (Dead Ringers)
1986 – A Mosca (The Fly)
1983 – Na Hora da Zona Morta (The Dead Zone (filme))
1983 – Videodrome – A Síndrome do Vídeo (Videodrome)
1981 – Scanners, sua mente pode destruir (Scanners)
1979 – Filhos do Medo (Brood, The)
1979 – Fast Company
1977 – Enraivecida na Fúria do Sexo (Rabid)
1975 – Calafrios (Shivers)
1970 – Crimes of the future
1969 – Stereo
1967 – From the drain
1966 – Transfer

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