Ficha Técnica

Diretor: Bertrand Bonello
Roteiro: Bertrand Bonello
Elenco: Hafsia Herzi, Céline Sallette, Jasmine Trinca, Adele Haenel, Alice Barnole, Iliana Zabeth, Noémie Lvovsky, Xavier Beauvois, Jacques Nolot
Fotografia: Josée Deshaies
Música: Bertrand Bonello
Edição: Fabrice Rouaud
Produção: Bertrand Bonello, Kristina Larsen
Distribuidora: Petrini Filmes
Duração: 125 minutos
País: França
Ano: 2011
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

Paradoxalmente, o sucesso materialista confronta-se com a ética dos bons costumes. O maniqueísmo situacional, já gerado pela projeção subjetiva de regras impositivas, desencadeia a fútil necessidade de se achar que o essencial acontece pelo poder monetário, não sendo colocado em xeque o lado intrínseco do ser humano. Os sentimentos mais íntimos e básicos de um indivíduo social são mitigados para que se dê lugar aos desejos adjetivados pela chamada sociedade. Quando digo contraditório, é porque a mesma camada majoritária que cria o querer pelo consumo é a mesma que segue o caminho inverso de criticar e injetar culpas. O diretor francês, Bertrand Bonello, realiza o papel de traduzir, assim como nos outros filmes anteriores, uma antropologia social, analisando o material bruto humano na mais pura essência. O cineasta possui uma inquietude polêmica, por tratar de temas delicados, e ainda considerados tabus, como por exemplo, “O Pornógrafo”, sobre um diretor de filmes pornôs, que se preocupa que as cenas de sexo tenham amor, ou “Tiresia”, abordando a vida de um transexual, ou “Na Guerra”, sobre uma cineasta que tem uma epifania de que para se alcançar o prazer hoje, é preciso travar uma guerra contra o mundo moderno. No seu mais recente longa-metragem, “L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância”, Bertrand, que também assina o roteiro, traz à vida os anos de decadência de um bordel francês, no início do século XX, chamado L’Apollonide. A trama inicia-se no crepúsculo do ano 1899, tem como meio a aurora do século xx, nos ano 1900 e finaliza com os dias atuais, retratando o cotidiano de prostitutas de luxo, enfurnadas no próprio local de trabalho, em três diferentes épocas, mesmo que a primeira seja tão próxima da segunda. A narrativa objetiva aprisionar o espectador, o inserindo no confinamento, a fim de que possa torna-lo intimo e cúmplice do ambiente. A sinestesia apresentada incomoda, no bom sentido, querendo recriar uma época atemporal, novamente contraditória, principalmente pelos elementos cinematográficos da fotografia e da música. A trilha sonora mescla o erudito da ópera e o pop sessentista, melódico, e estilizado dos primórdios do funk, de “The Right To Love You”, de The Mighty Hannibal, tema recorrente que despertou o movimento “blaxploitation”. Suas músicas, de cunho social e altamente crítico, questionavam uma época.
Há ainda, Lee Moses com “Bad Girl”, além de toda instrumental do próprio diretor / roteirista em questão aqui. A fotografia, de Josée Deshaies (de “Curling” e dos filmes anteriores de Bertrand), bucólica e barroca, é ajudada em muito pela cenografia elegante, eloquente e sóbria de Charlotte Filler (de “Polisse”). As duas complementam-se e imergem completamente o espectador no universo obscuro e instintivo da alma humana. Em certas cenas, podemos referenciar o estilo cinematográfico, por exemplo, o ângulo da câmera, utilizado pelo cineasta português Manoel de Oliveira. Mas é claro, que no caso francês, a narrativa equilibra a agilidade da realidade com o existencialismo acadêmico. Quanto ao elenco, o diretor não poupou esforços. Chamou a nata dos atores franceses. Podemos apreciar as interpretações de Hafsia Herzi (de “A Fonte das Mulheres”, “O Segredo do Grão”), Céline Sallette (“Além da Vida”, “Maria Antonieta”), Jasmine Trinca (“O Quarto do Filho”), Adele Haenel (de “Lirios d agua), Esther Garrel (irmã de Louis Garrel), Noémie Lvovsky (de “Reis e Rainhas”, “Mais que o Máximo”, “Atrizes”), Xavier Beauvois (“Homens e Deuses”, “Nos Embalos da Disco”), entre trantos outros que se entregam à arte. Outra referência também pode ser citada. É o caso do filme “Vênus Negra”, por causa da exposição de detalhes físicos a uma sociedade cruel ávida por desgraças individuais, como a mulher que ri. Quanto à forma que o diretor resolveu transpassar à tela, o espectador absorve a naturalidade como essência, tanto da nudez, das relações interpessoais, da submissão, das conversas com clientes e sobre os clientes, dos sonhos personificados e objetivados. As “acompanhantes” são mostradas como objetos, como bonecas, como um comércio monetário, como produtos oferecidos, entre jogos físicos e emocionais, tudo é permitido. Elas fazem tudo pelo dinheiro, tudo pela sobrevivência, esperam pela escolha. Mas na época temporal abordada, o padrão da “profissão” era outro. Havia tempo. Exigia-se inteligência, beleza, perspicácia, desenvoltura, para que pudessem papear sobre política, economia e psicanálise, e sensualidade sem vulgaridade.
Buscava-se a normalidade. Eram mascaradas que se relacionavam com mascaras. A metáfora, vez ou outra, no roteiro, explicita desejos e medos. A narrativa ganha inúmeros estilos. Ora repete cenas e diálogos em ângulos diferentes, ora fragmenta a imagem em quatro partes. O roteiro não deseja apenas retratar, quer porque quer, questionar e insinuar percepções. É, então, lógico que haja competição entre elas, mas por incrível que pareça é velada, sendo a solidariedade, cumplicidade e amizade os sentimentos mais predominantes. “Tire a roupa para se acostumar. Você não veio para fazer geleia”, diz-se, diretamente, sem a preocupação de causar magoa, lendo a permissão dos pais da nova “participante”, com quinze anos, do bordel. “Liberdade é lá fora, não aqui”, sentencia a dona do local. “É tão depressivo. Já vai amanhecer”, diz outra, num raro momento de autoquestionamento. “Faça o que o cliente quer, mas finja durante o sexo”, ensina outra. As taras humanas não possuem limites: banhos em champanhe, olhar partes intimas por olhar, excitar-se com cicatrizes. Aos poucos, por meio de um quebra-cabeça terapêutico, entendemos o real sentido da punição projetado no outro. Um corte facial, especialmente em quem possui beleza, gera o desespero da pessoa não ser mais desejada, porém, mais que tudo, liberta da pressão cotidiana. Receber uma cicatriz é finalizar o exercício de ser prostituta. Pegar gonorreia é um castigo, uma pausa. “Uma cientista escreveu ‘que o tamanho da cabeça das prostitutas é do mesmo tamanho da cabeça dos criminosos’ E que ‘prostitutas são dotadas de imbecilidade’”, diz um cliente. “É a porra de um trabalho horrível”, elas complementam e riem, catarticamente, buscando extravasar a interna humilhação. O tempo muda. Evolui. As roupas ficam mais leves e básicas, sem espartilhos e ou inúmeros botões, mas a essência continua a mesma. A eterna libido instintiva busca saciar fome sexual. O capitalismo segue sem mexer em time que está ganhando. Estimula, oferece e recebe, construindo culpas e antídotos. Concluindo, um filme que estuda o comportamento social e traça o paralelo da profissão mais antiga do mundo. Um filme direto, questionador, sem tabus e limitações. Vale muito à pena assistir. Recomendo. Indicado a Palma de Ouro 2011 do FESTIVAL DE CANNES, na categoria Melhor Filme. Orçamento estimado em quatro milhões de euros.
Trailer

O Diretor
Bertrand Bonello nasceu em 11 de setembro de 1968, de Nice. Seu primeiro longa-metragem, Quelque escolheu d’organique (1998), foi exibido na mostra Panorama do Festival de Berlim. Entre seus filmes, destacam-se O Pornógrafo (2001), selecionado para a Semana da Crítica de Cannes, Tiresia (2003), que participou da competição de Cannes, e Na Guerra (2008), selecionado para a Quinzena dos Realizadores de Cannes.

Bastidores

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