Ficha Técnica
Direção: Céline Sciamma
Roteiro: Céline Sciamma
Elenco: Zoé Héran, Malonn Lévana, Jeanne Disson, Sophie Cattani, Mathieu Demy, Yohan Vero, Noah Vero, Cheyenne Lainé, Rayan Boubekri, Christel Baras
Fotografia: Crystel Fournier
Música: Jean-Baptiste de Laubier
Edição: Julien Lacheray
Produção: Bénédicte Couvreur
Distribuidora: Pandora Filmes
Estúdio: arte France Cinéma; Hold Up Films; Lilies Films; Canal+; Arte France; Région Ile-de-France; Centre National de la Cinématographie (CNC); Arte; Cofinova 6; Films Distribution
Duração: 82 minutos
País: França
Ano: 2011
COTAÇÃO: MUITO BOM
A opinião
“Tomboy” apresenta-se como um filme clinicamente psicológico, por incluir quem assiste ao universo da construção terapêutica, enfatizando a sexualidade, ainda ingênua, de uma criança, que observa, sem o devido conhecimento, as mudanças corporais e ou comportamentais, perante os outros e a si mesma. O individuo, por mais que queira viver como ilha (dentro dos próprios parâmetros, desejos e individualismos), necessita da figura do outro a fim de que possa exercitar as possibilidades existenciais captadas do mundo ao redor. A história conta as experiências de uma menina Laure (Zoé Héran), de dez anos, que nasceu com o “corpo errado” e faz de tudo, com a ingenuidade que é peculiar nesta idade, para parecer um menino (Mikael). Ela “estuda” os hábitos masculinos, para depois repeti-los: cuspe no chão durante o futebol é um deles. Inúmeros fatores ajudam a protagonista, como por exemplo, o corpo magro e sem seios. É declaradamente homossexual, fato explicito quando acontece um beijo com a amiga, que “parece” não saber, ou talvez esteja na mesma exploração de novidades. É plenamente permitido experimentar. Saber o que gosta ou não. O conflito instaura-se quando os adultos, já fadados às definições (e limitações) de preconceitos (e de defesas pessoais), julgam e tentam desesperadamente impor as próprias vontades, oriundas de massificações alheias. Um ser humano, na fase “madura”, é um produto lapidado, com suas neuroses, medos, realismos e pessimismos.
Salvo alguns, que exercitam a liberdade aos seus filhos, a maioria rende-se ao senso comum, criticando as mesmas coisas, com os mesmos discursos. No filme em questão aqui, de pequena duração (não chega aos noventa minutos, incluindo os créditos) e com baixo orçamento (um milhão de euros), há concisão, trazendo Laure no seu estado bruto, da base anterior à estruturação, sem o poder dos princípios e de éticas subjetivas. “Não estou fazendo isso para machucá-la, nem para lhe dar uma lição. Sou obrigada. Entende? Não me incomodo que finja ser menino. Não vale a pena. Mas isso não pode continuar. Se tem alguma idéia, fale-me, pois não tenho nenhuma. Vai fingir ser menino o ano inteiro?”, diz a mãe preocupada, achando que se a filha for igual a todo mundo, ela sofrerá menos (a ambiguidade da frase é válida para as duas personagens envolvidas). A narrativa e o roteiro prezam a naturalidade, tanto de ações, quanto das interpretações. O que se vê soa como um documentário encenado, mas próximo da sensibilidade, exterminando de vez o clichê sentimental, conservando a característica principal do cinema francês. O elenco é um show a parte. A perspicácia e sagacidade da irmã menor, acostumada à vida atual de ficar sempre sozinha, elevando uma carência crônica, roubam a cena, transformando o longa-metragem num exemplo de inteligência e sofisticação.
A intérprete da protagonista foi escolhida logo no primeiro dia de testes para o papel. A parte técnica complementa a atmosfera analítica pretendida. Os constantes closes, ora tendo, apenas, os primeiros planos (o que se capta da imagem) visíveis, ora embaçados, permitem que o espectador embarque, sinestesicamente, à trama. É inevitável não referenciar ao filme “Meninos não Choram”, com a atriz Hillary Swank, por abordar histórias semelhantes, mas diferenciando no quesito idade. Uma, já adulta, outra, na infância. Esta é mais pura, enquanto a outra, mais visceral e sexual. Concluindo, um filme que merece ser visto e debatido. Até que ponto o status inerente de cada um deve ser modificado a fim de ficar compatível com o status inerente do outro? Será que a padronização é a solução mais fácil? Será que o aceite individual gera mais orgulho do que a liberdade de ser o que quiser? É um filme que retrata um período na vida de uma confusa menina e as devidas conseqüências quando a mesma resolve expor o seu lado mais original. Recomendo. As filmagens ocorreram em apenas 20 dias, em agosto de 2010. Vencedor do FESTIVAL DE BERLIM 2011, Prêmio Teddy.
A Diretora
Céline Sciamma nasceu em 12 de novembro de 1980, em Pontoise. É de nacionalidade francesa. Dirigiu também “Lírios D’água”, que durante o verão em um subúrbio de Paris, Marie, Anne e Floriane não têm nada para fazer além de olhar para o teto. Elas têm 15 anos e suas vidas irão em direção à piscina local, onde o amor e o desejo irão aparecer dramaticamente.

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