“Um filme para lembrar”

A opinião (por Fabricio Duque)

“Histórias que Só Existem Quando Contadas” é a estréia na direção da jovem, de trinta e poucos anos, Julia Murat, filha da também cineasta Lucia Murat. No filme em questão, a diretora opta por percorrer o cinema de autor, imprimindo uma narrativa de um tempo diferenciado, que foge do universo cosmopolita, o mesmo que estamos inseridos. Julia levou doze anos, incluindo sete a preparação do roteiro. Isso possibilitou que o filme fosse construído com calma. A trama aborda a vida dos moradores, especialmente de Madalena (Sonia Guedes), na cidade fantasma de Jotuomba. O tempo lá parece ter parado, estimulando o pensamento existencial. Com a chegada de uma misteriosa forasteira e fotografa Rita (Lisa E. Fávero), a rotina de todos é modificada. O silêncio recorrente dos diálogos e ações transpassa uma delicada fábula sobre o tempo e a memória. A simplicidade do cotidiano foca nos detalhes, acompanhados de uma fantástica fotografia, que mostra, com luz incidental, à parte objetivada. O filme respeita o tempo da ação, como o processo manual de fazer pão. Os planos longos e contemplativos transformam a visão do espectador, o inserindo como coadjuvante. Tudo é permitido a fim de que os instantes passem mais rápido: as picardias dos “velhos”, a missa, os beatos, cuidar do jardim do cemitério (trancado – metáfora ao impedimento da morte), as cartas, os jogos. Deixa-se acontecer, desejando o novo, que se contrasta com ações repetitivas e com pouca luz, porém não iguais. Quando uma “estranha” decidida e “mandona” chega pedindo privacidade em um lugar que não possui nada, Madalena, que nunca chegava atrasada ao seu trabalho (em uma padaria), questiona a própria vida. O longa-metragem trabalha com material bruto do ser humano: as imperfeições, marcas da velhice, olhos cansados e resignados. São tipos comuns, desprovidos de glamour e preocupação com a estética física. Apresenta-se de forma minimalista, como quadros fotográficos. O silêncio do lugar é mitigado ao ouvir música indie, de Franz Ferdinand em “Take me out”, pela jovem. “Gosto mais de serenata”, diz-se. A fotografia alaranjada, inferindo a uma foto envelhecida, permeia o tom de sinceridade cruel – direta – e realista de seus personagens, que são interpretados por excelentes atores, convencendo pela extrema naturalidade. Comporta-se quase como um documentário de vidas, visto de dentro para fora. “Pão é que nem gente. Se não respira, endurece”, diz-se. “Eu nunca ouvi tanto silêncio”, poetiza-se. É um filme econômico, que mostra menos para ser mais, sóbrio, adulto, que aprofunda a morte de um jeito humanizado, transformando crenças enraizadas, tanto dos que participam do longa-metragem, quanto os espectadores. Um filme necessário e obrigatório.

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