Ficha Técnica
Direção: Eduardo Vaisman
Roteiro: Claudia Mattos
Elenco: Eduardo Moscovis, Malu Galli, Felipe Abib
Fotografia: Thiago Lima
Música: Fernando Moura
Direção de arte: Emily Pirmez
Edição: Ana Teixeira
Produção: Claudia Mattos, Eduardo Vaisman, Gisela Camara & Luís Vidal
Estúdio: Limite Produções
Duração: 90 minutos
País: Brasil
Ano: 2010
COTAÇÃO: MUITO BOM
A opinião
“180 Graus” é a estreia na direção de um longa-metragem de Eduardo Vaisman (dos curtas “Apartamento 601”, “Dedicatórias” e “Dadá”). O diretor escalou o trio (extremamente competente) Eduardo Moscovis, Malu Galli e Felipe Abib (não necessariamente neste ordem no grau de melhor atuação, porque os três complementam-se) e convidou a roteirista Claudia Mattos – decisão mais do que acertada, visto que o filme insere-se no gênero autoral. O roteiro é perspicaz, sutil, despretensioso, sagaz, metafórico e detalhista, funcionando como estrada para que a trama aconteça. Com narrativa não linear, o passado intercala com o presente, sem demonstrar explicitamente ao espectador, que tem a sua inteligência preservada e respeitada. A naturalidade atinge tanto as ações e reações quanto os diálogos, que se expressam por textos longos e viscerais, sendo preciso aos atores a entrega total. Neste momento, quem assiste percebe a qualidade do contexto apresentado. Eduardo conseguiu mesclar em um único lugar (no longa-metragem) naturalidade, dinamismo, manipulação, sem apelações ao clichê e ou óbvio. A atmosfera é como um conto de um livro, meio alienante, mostrando estranheza, porém com convencimento realista e aprofundado. A parte técnica complementa a elegância do não pretender ser algo.
O Jazz inicial apresenta o caminho. A camera anda ao redor dos protagonistas. A fotografia alaranjada, bucólica, comporta-se como atemporal, com nostalgia atual, mesmo datando o momento presente. Os detalhes (por planos e ou por observações dos interpretes) funcionam como fio condutor, conectando e amarrando a história. “Tem coisa que muda, tem coisa que não muda”, diz-se entre inúmeras metáforas sarcásticas. As frases de efeito ilustram o que quer ser dito. Um gosta de café com açúcar, o outro sem. Como o ditado popular: “Para bom entendedor, meia palavra basta”. Anna, Russell e Bernardo, os nomes dos personagens, embrenham-se por jogos e cada um compete pelo amor do outro. É um quebra-cabeça que necessita ser montado aos poucos, jogando também com quem está do outro lado da tela. Este embarca na teia de reviravoltas e confusões. Há picardias saudáveis, há crueldade no que se diz, que pode ser seco, direto, defensivo, ameaçador, irritante e desafiador. “Nasce bonita, mas sem sementes. São gostosas, mas nunca vão dar frutos. O que você espera da laranja? Suco ou semente?”, questiona-se.
O “exilio em São Paulo” de um personagem gera a situação explicita de poder entre empregado e patrão. É inevitável a aparição de clichês: como a música em um pensamento romântico. Mas não prejudica em nada. É um filme de construção. As ações acontecem por causa de ações e ou a fim de explicar ações, que se definem com total liberdade, possibilitando a quem as escolhe o livre arbítrio. “180 graus é a temperatura total da evaporação do sangue”, diz-se. “Genial. Isso é verdade?”, pergunta-se. “Claro que não, todo mundo cai em uma cascata bem contada”, responde-se. Há referências ao jornal O Globo, compreensível por contar com a presença de atores globais; e a Livraria da Travessa. A caderneta perdida permeia a trama, gerando O Livro dos Projetos, que acarreta um livro de sucesso. Entendemos que as situações fragmentadas, em elipses, transmitem-se por pequenos contos presentes no livro. A mesma técnica literária usada no livro é a mesma utilizada no filme pelo roteiro ficção. É metalinguagem pura e clássica. O final surpreende. Concluindo, um filme que merece ser visto porque mistura fantásticas interpretações, um roteiro incrível e por não querer ser nada a mais do que uma trama inteligente. Recomendo. Ganhou o FESTIVAL DE GRAMADO de 2010 por Melhor Filme – Júri Popular; e FESTIVAL DE CINEMA BRASILEIRO DE MIAMI 2011 por Melhor Diretor e Melhor Roteiro.
O Diretor
Eduardo Vaisman é formado em cinema e dirige documentários, filmes de curta-metragem, programas de TV e comerciais. Seu curta-metragem Dadá, ganhou mais de 10 prêmios internacionais (Havana, Toronto, Portugal, Rio de janeiro, São Paulo) e participou de mais de 40 grandes festivais (entre eles o Festival de Berlim, mostra Panorama). Começou a trabalhar com cinema em 1989 como assistente de direção em longas-metragens brasileiros e em documentários, muitos de produção estrangeira. 180º, que recebeu o prêmio de baixo orçamento do Ministério da Cultura, é seu primeiro filme de longa-metragem.
Bastidores

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