Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Flavia Castro
Montagem: Flavia Castro e Jordana Berg
Fotografia: Paulo Castiglioni, Jean-Marie Cornuel (2002), Sarah Blum (Paris)
Som: Valeria Ferro
Produtores: Flavio Tambellini, Estelle Fialon, Flavia Castro
Produção Preparação e Filmagem: Sophie Bernard, Ricardo Targino
Assistência de Direção: Malvina Rosa
Musica: “Desconstruída sob encomenda” de Mário da Silva
Mixagem: Eric Rey
Distribuidora: VideoFilmes
Estúdio: Tambellini Filmes / Films du Poisson
Duração: 105 minutos
País: Brasil / França
Ano: 2010
COTAÇÃO: MUITO BOM


A opinião

“Diário de uma Busca” não é sobre a ditadura. É um relato de vidas que cruzaram este estágio político, procurando por respostas a fim de resolver pendências temporais, afetivas e pessoais. A voz é personificada na diretora estreante Flavia Castro, que garante que a vontade de fazer o filme não é catarse, libertação, nem virar uma página de um livro. “É apenas um filme”, diz. A sua exposição, perante a câmera e a quem assiste, foi trabalhada assistindo curtas-metragens experimentais, mas é nítido, e perceptível, ao espectador uma desenvoltura, observada, principalmente, quando a mesma é entrevistada aos quatorze anos. Flavia escreve desde pequena (provavelmente em seu diário), o que a possibilitou relembrar sinestesicamente as emoções vivenciadas daquela época e ter uma percepção de realidade, mitigando os elementos fantasiosos. Escrever sobre o filme gera a necessidade de escrever sobre a sua diretora. Mesmo com o apoio de sua família (da mãe, do padrasto e de seu irmão Joca – este não participando inteiramente da investigação, como visitar legistas e policiais), a realização é da Flávia, como produtora, como roteirista, como diretora, inserindo o tema principal, participar como filha, em uma narrativa de construção, que compartilha com o espectador as descobertas, as corroborações de caráter, as tentativas em vão a fim de solucionar o mistério da morte de seu pai.
O roteiro apresenta a história conhecida, a que está nos jornais, do que aconteceu com o militante de esquerda, Celso Afonso Gay de Castro (1943- 1984), vivendo uma vida de fuga, exílios, amores e filhos. É inevitável que quando se procura algo, a possibilidade de se encontrar o que não deseja é elevada. Mas Flavia conduz com “profissionalismo” a história de sua vida, imprimindo uma narração naturalista, humanizada e resignada. A resiliência transmitida mostra a sua capacidade de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas, tornando-se um individuo social, que convive com traumas (resolvidos) do passado. As fotos do início do filme direcionam memórias afetivas, de redescoberta das sensações. Complementam-se inúmeras reportagens de jornais, revistas, de documentos secretos (que agora podem retornar à família das vítimas).
“Durante muito tempo, pensar no meu pai significava pensar em sua morte. Como se pelo seu enigma e pela sua violência, ela tivesse apagado sua história. E apagado junto parte da minha vida”, narra. Porto Alegre, afã de descobrir detalhes sobre o pai, a infância contada pela mãe, que diz sem limites o que acontecia na época ditatorial, é o lugar que o documentário inicia. A atmosfera transmite nostalgia buscada, afetividade em lembranças e amadorismo proposital (como o zoom – aproximação da câmera – puxada manualmente), para que possa aprisionar o espectador em um momento datado contrastado pela inserção atual. A morte foi exasperada em tom sensacionalista. O jornal Zero Hora trazia o suicídio misterioso (por não haver provas concretas) de Celso e de mais um integrante.
Basicamente, seria um assalto a alguém (que poderia ser nazista, por causa do uniforme da suástica achado). Tudo foi escondido, com censura, limite e sigiloso. Entre militantes, companheiros, nomes falsos, lugares diversos, sem escola, sem amigos, a curiosidade ganhava terreno. “Onde foram meus pais?”, perguntava. É impossível não referenciar a outros filmes políticos. Seleciono comentar dois. Um por ser mais explicito ao tema. O outro pela sutileza e pela quase sublimação da idéia. “O Ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger, aborda o desconhecimento de um garoto entre a luta social e comunista dos pais. E “Incêndios”, do diretor Denis Villeneuve, que constrói uma história política sobrepondo-se a alienação revolucionária de agora. “Como a gente agüentou tantos rompimentos?”, diz-se sobre a ruptura de uma estrutura política, que incluem prisões, execuções, afastamentos, mostrados em planos longos e existenciais.
“O filme é seu. O olhar subjetivo é seu”, diz o irmão. Flavia embarca em uma aventura Road movie, com a família, aos lugares que eles viveram exilados.
O caminho passa pelo Chile 1971, com Salvador Allende, por Cuba (e Fidel Castro), o treinamento de luta armada em Buenos Aires, Bruxelas, Paris 1974, Venezuela 1976, Brasil 1979. (“Em maio é a época mais acolhedora do mundo”). “Assumindo todos os problemas e riscos da decisão”, diz a carta de Celso. A mãe assume: “Era uma irresponsabilidade”. Eram jovens passionais, utópicos, com sentimentos de mudar o mundo. De que a revolução os faria ser poderosos e melhores administradores. Enquanto isso, as crianças brincavam de reuniões. Reverberavam o que escutavam ou tentando entender o que viam. “Os filhos eram um estorvo à militância. Sim, vocês eram”, diz a mãe a diretora. “É cansativo ficar o tempo todo alerta”, complementa a documentarista que morou três meses na Embaixada argentina. A sua história mistura-se a da revolução. Frequentava cinema com o pai.
Via Zorro e Sergio Leone. Ouvia sempre que esses militantes eram subversivos, terroristas, lendo revolucionários como Florestan Fernandes. Há sarcasmo ingênuo. “Ele canta baixinho cartolas e lupicínios”, relembra. A culpa, a revolução perdida (por causa da permissão do retorno ao Brasil), faz com que Celso embarque nas drogas, a fim de fugir de uma “depressão quase estrutural”. “Entender por que ele fez aquilo, não resolveria o mistério”, diz-se. É a geração de filhos de militantes que sofreu com todo o radicalismo político dos pais. Concluindo, um filme único, cativante, denso, libertador, despretensioso, pessoal, contextual, histórico, subjetivo, emocionante, que prende o espectador, que deixa acontecer e que se expressa como necessário, leve, humanizado e espetacular. Melhor Documentário do Festival do Rio 2010. Prêmio da Crítica de Melhor Longa Nacional no Festival de Gramado.
A Diretora
Nascida em Porto Alegre,‭ ‬a diretora Flavia Castro morou mais da metade de sua vida fora do Brasil e a outra metade no Rio de Janeiro.‭ ‬Roteirista,‭ ‬começou a dirigir recentemente,‭ ‬estreando no longa com “Diário de uma Busca”.‭ ‬O filme já conquistou o Prêmio de Melhor Documentário e FIPRESCI no Festival do Rio‭ ‬2010,‭ ‬de Biarritz‭ ‬2010‭ ‬e de Melhor Filme para a Crítica no Festival de Gramado e no Festival de Punta del Este.‭ ‬Há pouco estreou nos cinemas franceses‭ (‬antes mesmo do Brasil,‭ ‬o que revela as distorções de nosso mercado distribuidor‭)‬,‭ ‬onde vem recebendo críticas entusiasmadas e uma boa acolhida de público.


Poster Francês e Instante da Produção

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Crítica: Deslembro

Ao som de ele não, francês não.

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