Picaretagem “Cult”

Por Vitor Velloso


Existem filmes que exigem do espectador uma longa paciência para que os mesmos sejam recompensados pela espera de suas revelações. Bom, definitivamente, Hannah não é um desses.

Vindo de uma vertente de cinema que busca uma contemplação acerca da personagem, buscando nos mínimos detalhes suas intenções, Hannah flerta entre a mediocridade e a boa intenção. Dirigido por Andrea Pallaoro, o longa busca contar a história da mulher do título “Hannah”, que vive com seu marido e um cachorro. Não há muito o que ser dito da sinopse, além disso é entregar parte do filme.

É um daqueles projetos onde a atriz recebe os prêmios por ter atuado o tempo inteiro sozinha, ter feito um trabalho singelo e honesto. De fato, Charlotte, como sempre, está bem, porém, é necessário dizer que muitos de seus longas recentes possuem a mesma característica, assim como suas atuações, estão se repetindo. Ela foi premiada em Veneza, diga-se de passagem.

Típico caso de filme pretensioso, que quer ser encaixado no subgênero, mais que batido, “arthouse”. Esse virtuosismo egocêntrico de querer ser encaixado em um grupo, onde não há o que se explicar, apenas há, a contemplação. Contemplação nunca foi problema, vide Chantal Akerman, o problema é quando existe a intenção de fazê-lo por um estruturalismo barato, com intenções de arrecadar prêmios e aplausos de pseudo cinéfilos ao redor do mundo. E isso não quer dizer que não existem acertos aqui, de fato eles estão presentes, porém, a picaretagem performática é tão grande que eles perdem relevância. Parece que o diretor tinha um roteiro e quando viram a Charlotte, decidiram jogar tudo pro alto e decidir que ela performance os sentimentos das cenas excluídas.

Algumas comparações vêm sendo feitas com “45 Anos”, sim, a atuação dela é idêntica. Porém, o longa de Andrew Haigh, possui mais ideia de onde está indo, além de possuir uma direção mais decidida também. Andrea assina seu segundo longa. Aqui vemos um diretor que possui uma diretriz específica quanto a sua estética, mas é atropelado pela própria ideia. Os planos mostram exatamente a meticulosidade que é construída por ele, aliado do diretor de fotografia, Chayse Irvin, que faz um belo trabalho inclusive, mas que não se sustenta. Os enquadramentos são belíssimos e vemos pequenos travellings saltarem aos olhos ao serem realizados. Mas assim como a direção, essa fotografia que é bela e técnica, não suporta o roteiro.

A chatice impera, o ritmo é extremamente prejudicado pelos longuíssimos planos, 90 minutos parecem três horas. E quando achamos que estamos caminhando para alguma direção, não. O curioso é lembrar a própria atriz num vídeo da Criterion, onde ela diz “Tarkovski não, muito chato, bom para dormir”. Não, Tarkovski toma seu tempo para construir o que precisa, não faz picaretagem preguiçosa a fim de conseguir alguns holofotes, por ter dirigido uma atriz vencedora de diversos prêmios. Afinal, Dolan o fez, sem precisar passar por isso. Tá certo que Dolan não atua bem e é, às vezes, mais histérico do que precisa, mas isso não impediu ele de conseguir atenção.

Um dos maiores problemas do cinema independente, em geral, é sonhar com o lobby fajuto da arthouse contemporânea liderada por crianças pretensiosas. Sonhe com o tapete vermelho, sim, mas faça isso de maneira concreta. Não tente recriar um modelo medíocre construído ao longo dos anos. O louro pode até vir, mas a que preço? Ser aplaudido por semelhantes não é necessariamente uma vitória, também não é uma derrota. Conclui-se que a tarefa que foi cumprida, não passa do limbo do esquecimento. Nada se diz, nada se responde.

Os Minions do cinema pós-Truffaut, idolatram cineastas já consagrados na indústria, como o Michael Haneke, mas constroem uma linguagem preguiçosa e, por muitas vezes, desleixada. Haneke é culpado disso? Bom, eu tenho meus problemas com o diretor, e não são poucos, detesto “Violência Gratuita” por exemplo, mas sou obrigado a dizer que não. A culpa é de quem segue essa padronagem moldada para grupos burgueses, adoradores do gênero mais ovacionado dos últimos anos, o “Cult”. E sim, Cult virou um gênero. Os espectadores brancos e complexados dos cinemas da Zona Sul de suas cidades, frequentadores de cinemas específicos, que passam o catálogo europeu completo. Digo isso por experiência própria, moro no Rio de Janeiro e já vi isso acontecendo mais de uma vez. “Eu quero um ingresso para esse filme francês aqui” “Esse filme francês é bom?” “Nossa esse filme é incrível, é francês.”

Não há mais espaço no cinema brasileiro para os colonizados. “Hannah” não é um caso especial, nem o último. Segue a fila.

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