O paraíso perdido da inocência

Por Fabricio Duque


Assistir a uma obra do realizador Robert Guédiguian (de “As Neves do Kilimanjaro”, “A Cidade Está Tranquila”, “O Último Mitterrand”) é embarcar no cotidiano. Nos instantes das micro-ações. Na naturalidade do existir. Na simplicidade do pouco. Em momentos embevecidos de sensíveis e espontâneas alegrias, ingredientes estes da de uma desmedida felicidade.

É orgânico, saudosista, improvisado e ingênuo. Busca-se uma nostálgica inocência perdida adaptada à realidade do agora e sua falta de compatibilidades. Nós, espectadores, somos convidados a observar a captação da essência pululada de seres convivendo e compartilhando idiossincráticas e ímpares diferenças.

Em seu mais recente filme exibido no Festival de Veneza e do Rio 2017, “Uma Casa à Beira-Mar” questiona o lugar de paraíso nos tempos atuais, em que substituímos calmarias por impossíveis afazeres; ócios-vivências pela exposição midiática e digital de nossos caminhos percorridos. É outro tempo. Outra época. Ininteligível e acelerado, sem espaço para sentir e até mesmo se alienar.

A trama versa sobre três irmãos que se reúnem ao redor do leito de morte de seu pai, um dos pilares de toda a família, e agora todos precisam pensar no que será do pequeno paraíso que ele construiu, em torno de um modesto restaurante à beira-mar.

Estes indivíduos, seres alienígenas viajantes de outro universo, são confrontados com a necessidade e imposição da adaptação. De transformar suas sutilezas em exageradas sensibilidades; purezas espirituosas em pensamentos politicamente corretos; ações humanitárias em oportunistas discursos políticos; impulsos em limitações; ajudas em hesitações.

Depois de tanta luta pela liberdade, nós, máquinas errantes e emocionais, chegamos a perceber que retrocedemos à idade da pedra. É um paradoxo. Uma inversão filosófica. Pecamos por racionalizar demais o que deve ser apenas para sentir. Falta-nos compreensão para tolerar nossas cumplicidades.

“Uma Casa à Beira-Mar” é sobre vidas sociais versus individuais, que aprendem a cada dia o poder da tolerância. Em aceitar os limites, tempos, quereres, defesas, fragilidades, vulnerabilidades, solidões e outras conseqüências existencialistas das convivências interpessoais.

Entre planos estáticos e contemplativos, o longa-metragem, que conduz pelos detalhes do estágio do ser estando, nos imerge na verdade realista, que incomoda, constrange, mas que fornece humanidade. “Esses árabes que não conseguimos civilizar”, diz-se com sarcasmo agressivo (que agride o outro, mas entendido como um desabafo), “em Paris, com guerra”. É uma revisitação. Com ou sem “receitas do papai” de um restaurante de família. Com ou sem olhares que dizem tudo sem a necessidade de palavras.

Uma viagem ao passado. Um libertador, direto e catártico reencontro, como uma terapia de choque não radical. A vila – o lugarejo – é o portal tridimensional, que “antigamente era uma tesouro e que conseguiram estragar tudo”. “Era cheio, agora vazio”, diz-se com desesperança metafórica a um mundo que não volta mais. Que mudou. O exército ronda a área (tentando proteger do perigo terrorista antes que alguma tragédia aconteça), mas não entende as picardias, tampouco as tiradas, ora sutis, ora escancaradas.

Como já foi dito aqui, seu tom é saudosista, de confrontar gerações, do antes com o exato instante atual, comparando os dois tempos por lembranças, sensações, sentidos e fotos. Cada um é prisioneiro do que já se acostumou a ser. E ou pela indicativa, visual e explícita característica física, a “atriz mais baixa”, por exemplo. E ou o pretensioso, arrogante e altivo. E ou os embates políticos de esquerda e direita.

“A parede é deles, mas sou eu que vejo”, filosofa-se cotidianamente com suas ofensas a todos sem esquecer nenhuma raça e ou credo (“judeus mais cascudos”). É sobre comer, beber e amar. E fofocar. Muito. Esta talvez a essência da vida. Com seu roteiro preciso que consegue traduzir o que assistimos. “Antes contrabandistas, agora aduaneiros”, “ensina-se” com o folk de Bob Dylan.

“Uma Casa à Beira-Mar” é sobre segredos, histórias, traumas, burgueses, hipocrisias, auto-enganações, comunistas, culpas, enfrentamentos, e sofrimentos enraizados (que engessam o continuar). É um filme de situações, de melancolias, de diálogos afiados, em que os próprios personagens destroem para reconstruir. Sim, se analisarmos este caos, então descobriremos muitos gatilhos comuns, muitos clichês sentimentais, muitos elementos mais dramáticos, como a teatral reconstituição-digressão de um determinado acontecimento trágico. “Teatro é um lugar para reinventar o mundo”, diz-se.

Do palco e a plateia. Porém, tudo propositalmente serve para despertar uma maior intimidade, para que com sinestesia entremos na atmosfera bucólica do “cheiro de peixe”, de seus “pescadores”, da “virtude dos imbecis”, de seu tempo pausado e das causas de uma depressão permanente. “As boas lembranças são horríveis”, diz-se. É também um filme crítico. De luta a favor dos refugiados. De re-acordar. De ir de encontro ao medo, vitimismo e a paranoia. “Não se pode forçar a vida”, diz com insistência, com passionalidade e com “café a uma da manhã”.

É politicamente incorreto se nós não expandirmos nossas percepções e ideias. É respeitar a dor do outro e o simbolismo da união, com rosas que conquistam. O local é o centro do mundo. Para eles. “Ou criamos raízes ou morremos”, finaliza-se. Um filme assumida e impulsivamente pessoal, autoral e conceitual.

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