O conforto tedioso da indústria

Por Bruno Mendes


Pessoas são complexas e peculiares. Cada cabeça um universo. Cada angústia um oceano de incertezas. E além das dores, todos já vivenciaram instantes especiais que duram um dia, mas que poderiam (caso o destino fosse justo) serem eternizados, certo? Agora imagina só o turbilhão de intempéries na mente de uma adolescente em fase de crescimento/ajustes e amadurecimentos psicossociais: rapazes, crise no relacionamento dos pais, estudos, responsabilidades, mais e mais dilemas. O longa “Todo Dia” (dirigido por Michael Sucsy) , baseado no best seller de David Levithan, observa certos caminhos de uma garota na faixa dos 16 anos por intermédio de uma história até certo ponto original.

Rhiannon não sofre bullying direto, nem suspira por esportistas com músculos torneados, mas se encanta por uma espécie de alma chamada “A” que incorpora ‘todo dia’ em pessoas com diferentes gêneros e características físicas. As nuances da personalidade de “A” são tão especiais, que a jovem secundariza os atributos físicos dos tipos que encontra, mesmo que deixe claro a preferência por sujeitos “ altos, magros e com ombros bonitos”. Todo Dia debruça o olhar em direção a certas angústias de uma ‘quase-adulta’, mas diferentemente de tantas obras, cuja narrativa está estacionada em dilemas corriqueiros da faixa etária, este busca imergir nos anseios mais idiossincráticos. O objetivo é louvável. Infelizmente as engrenagens comerciais, alicerçadas ao modus operandi formulaico, roubam as sutilezas e tudo que poderia proporcionar novos ares a mais uma produção sobre o universo jovem.

Todo Dia é raso. Parece proposto a divertir e “fazer refletir” por ínfimos minutos o público que inclui a ida a algum desses multiplexs da vida, como parte de um cronograma de diversão recheado de múltiplas opções. Em palavras reduzidas: é cinema de ‘embalagem’, propositalmente escapista, o que é de se lamentar, se direcionarmos o pensamento a aquele que confere algum respeito diferenciado à sala escura.

Vejamos o que acontece com os personagens: Rhiannon é a protagonista pretensamente ‘multifacetada’. Ainda que não entre em conflito explosivo com os pais, absorve negativamente a frieza do trato entre eles. É uma garota simpática e cordial, mas pouco a pouco distancia-se dos amigos, pois apenas “A” é capaz de agradar, surpreender, envolver emocionalmente a moça, com completude.

Ao longo do enlace entre Rhiannon e os amplos corpos de “A” – mesmo que o afeto emocional seja mais importante, é claro que a jovem queira beijar na boca, como qualquer jovem munido de desejos voluptuosos -, os coadjuvantes que não foram possuídos pelo “demônio”, tornam-se figuras meramente decorativas e com escassa função narrativa. Uma melhor amiga que reclama da pouca atenção dispensada. Uns garotos malvadões que abruptamente surgem para proclamar agressões sexistas e logo depois desaparecem. O pai que pinta quadros e abandonou a profissão burocrática, pois não se sentia realizado e hoje se sente neutro e inválido na relação com esposa e filha. É evidente que a lente de aumento do roteiro oferece destaque aos meandros da protagonista, mas a falta de zelo com a gama de humanidade que a cerca, empobrece sua própria construção. Como podemos admirar e refletir com maior argúcia sobre as questões de quem pouco interage com o “mundo real”?

Todo Dia propõe um olhar para aquele sentimento que pessoas podem dedicar à outra em razão da “essência”, do inexplicável. É uma pena que os trilhos da superficialidade sejam definidos pela narrativa.

O último ato até tenta propor alguma reflexão relevante sobre o suposto egoísmo e desespero de Rhiannon, quando ela ignora fatores externos e deseja a ‘alma perfeita’ para si por todo o tempo e a qualquer custo. Nesse momento do universo fílmico, o roteiro destaca passagem importante do amargo e providencial processo de amadurecimento da personagem, o que é positivo, pensando na temática como um todo. Contudo, o filme retorna para a ‘página 2’, deixando claro que estabelecer-se na cômoda superfície é a meta das metas.

Embalado por lições de moral padronizadas, conflitos insossos, repetições desnecessárias (alguém apontaria a pertinência narrativa dos numerosos contatos entre a adolescente e a irmã?), Todo Dia é mais um esquecível expoente entre tantos outros que são desenhados para arrancar uma lágrima aqui, um sorriso forçado acolá e quiça, breves (e bota breves nisso) suspiros.

Não sejamos maniqueístas, afinal os lampejos criativos ainda reluzem nas regras do jogo, mas a indústria cinematográfica continua a alimentar conformismos e a entregar ao público exemplares pífios como este romance.

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