A arte de fazer rir

Por Chris Raphael


Como diria Glauber Rocha, cinema se faz com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. E essa frase nunca esteve tão presente em nossa vida, nunca foi tão atual e tão perturbadoramente verdadeira. Nos dias de hoje, com o advento da tecnologia, da internet e das redes sociais midiáticas, nos tornamos a máxima expressão de nós mesmos: somos todos cineastas, somos todos roteiristas, somos todos protagonistas. E, ao mesmo tempo, somos espectadores também. Essa visão contemporânea deixaria Glauber de cabelo em pé. Ou não.

Diariamente somos severamente bombardeados por uma gama incomensurável de vídeos caseiros e/ou pseudo-profissionais que nos assolam onde quer que nos encontremos. Um simples smartphone nos coloca em contato com a incomum experiência de seguir, opinar, participar, interagir ou meramente contemplar os momentos, os almoços, os jantares, as festas, os conteúdos reais ou imaginários da vida alheia, além de permitir ( se quisermos) que amigos, conhecidos ou completos estranhos sigam, opinem, participem, interajam ou meramente contemplem, de alguma maneira, a nossa (suposta) intimidade. É o ápice do glamour ser seguido e comentado
Nessa vibe, a serie nacional “Borges”, produzida pela grupo Porta dos Fundos e exibida no canal Comedy Central e na Netflix, aborda essa melindrosa temática da sociedade moderna.

A história acompanha Erasmo (Antonio Tabet), Pablo (Rafael Portugal), Rosana (Thati Lopes), Sonia (Karina Ramil) e Borges (Luis Lobianco)  no elenco fixo. A primeira temporada tem 10 episódios, com 30 minutos de duração cada. Foi gravada no Rio de Janeiro, durante o segundo semestre de 2017. O Porta dos Fundos, criado em 2012, é um dos canais brasileiros mais assistidos do Youtube, arrastando mais de quatorze milhões de seguidores.

No argumento da estória, Borges é uma firma de importação falida, com uma enorme dívida e o dono desaparecido. Os quatro últimos funcionários não sabem com fazer para explicar a situação e escapar de um destino nada desejável como a prisão. Resolvem gravar um vídeo mensagem, como um Reality Show, para o Youtube , mostrando a péssima situação em que se encontram e com isso, tentar angariar a simpatia dos espectadores e dos credores. A falta de experiência transforma o vídeo em um completo desastre mas a graça está em perceber a grande quantidade de visualizações que o mesmo recebe, tornando-se rapidamente um viral. Isto faz com que todos acreditem que lançar novos vídeos será a forma para conseguir dinheiro e saldar a dívida. Assim nasce o novo canal de vídeos na internet.

A partir daí, tudo pode acontecer. E, de fato, acontece. Como sugere a infalível Lei de Murphy, o inesperado, o imprevisível e o improvável sempre estão espreitando uma oportunidade de se mostrar, de modificar e até mesmo de sacanear (eu diria principalmente de sacanear) os incautos. Muitos embustes, confusões e emoções servem de argumento para roteiros protagonizados por eles mesmos e por terceiros, que aparecem como coadjuvantes em diversos episódios, que agregam mais qualidade e diversidade aos arquétipos já criados.Como o diretor baiano profetizou: uma câmera na mão e uma ideia (?) na cabeça.

Situações inusitadas são geradas, muitas delas são politicamente incorretas, constrangedoras e desconfortáveis. Roteiros com humor pastelão sāo pérolas da rotineira vida do ser humano comum, agora elevado a categoria de ator principal de sua existência medíocre. As mazelas da vida diária, pequenas picuinhas das relações pessoais, as famosas DRs de casal sendo exibidas ao vivo, a não cortesia nas prestações serviços e até a violência urbana são esbanjadas em cenas hilárias(?) e incomuns, que suscitam riso e alguma indignação: até onde a exposição de idiossincrasias é crítica ao mundo moderno, até onde o sarcasmo é piada aceitável?

Apesar disso ou talvez por isso, a série consegue alcançar o objetivado preceito do humor. Rir de tudo. Rir é o melhor remédio. Rir do incomum. Rir da desgraça alheia é parte incontestável do ser humano. A sucessão de erros com a inspiração non sense juntamente com o necessário desacato aos desafetos, conduzem a uma expectativa transcendente da visão geral desse mundo em que habitamos, cuja sociedade como um todo está se tornando tão imediatista quanto minimalista. Por mais inadmissível que pareça, estas impressões parecem marcadas no DNA e residem no inconsciente coletivo mundano. O menos é menos. Só rindo mesmo.

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