Um filme substituível

Por Fabricio Duque


Exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2017, “Cachorros” é aquele típico filme mundo-cão, que imerge o espectador na hostilidade, e agressividade das relações inter-sociais, e na existência submissa de uma mulher de quarenta e dois anos que é tratada por todos de forma infantilizada, como se fosse uma mimada criança de dez anos de idade. Ela vive seus dias sendo constantemente estigmatizada por homens.

Estes, machistas natos, cachorros primitivos no cio de suas próprias vontades, monstros mascarados saídos de uma obra-de-arte ultra realista-fantástica, de egoísmos oportunistas, que repercutem o a massificação que sempre receberam: de tratar as mulheres como um ser descartável, assim como um animal substituível. Não são nada, e elas aceitam essa condição. São marionetes que às vezes recebem limitadas liberdades de respiros e de pseudo crenças que estimulam um momentâneo vislumbrar de um futuro diferente.

O filme busca confusão narrativa, de caminho perdido que não leva nada a lugar algum. Aos poucos, o público é inserido em detalhes que tão pouco importam à trama, até porque nada mudará e o “vilão colaborador nunca será preso”. Mas seu roteiro, dotado de metáforas e simbolismos comportamentais-paralelos, procura o que nos chamamos de elemento facilitador: gatilhos comuns óbvios e frágeis para concluir as reviravoltas. E também o querer do mais: muitas informações questionadoras, polêmicas e tabus, como a ditadura argentina versus a uruguaia versus a chilena dos milicos “assassinos”.

Dirigido por Marcela Said (de “El Verano de los Peces Voladores”) “Cachorros” é um filme que desenha propositadamente a estranheza fora de tom, para, talvez, nos distanciar da própria história, fazendo com que sejamos também um mero coadjuvante descartável. Somos cavalos domados, resignados e sem coragem, que esperam vulneráveis a montaria, a violência para não revidar, a aceitação de que só manda quem tem o verdadeiro poder.

Mariana (a atriz Antonia Zegers, de “Uma Mulher Fantástica”, “NO”, “O Clube”, “A Vida dos Peixes”) faz parte de uma importante família chilena, mas, apesar dos privilégios, se encontra inteiramente infeliz em sua própria casa. Sentindo-se desprezada pelo pai e pelo marido, ela encontra refúgio nos braços do seu professor de equitação Juan (o ator Alfredo Castro, de “Neruda”, “Museo”, “Tony Manero”), acusado de diversos crimes durante a ditadura. A partir deste caso amoroso, Mariana contempla o passado de sua família vir à tona. E questiona se uma ação valerá ou não à pena para salvá-la de sua prisão e fazer justiça em um futuro mais esperançoso.

Sua diretora ansia criar paralelos políticos (a ameaça da guerrilha, tema este trabalhado em seu filme anterior) com o cotidiano social e humanizar o “criminoso”, paradoxalmente abordado com uma verdade direta dos demais, em uma terra sem leis. Mariana concorda com a vida que tem. De ser uma “dondoca” sinônimo de “shopping”. Joga com todos, esbraveja com confrontos e aceita rapidamente continuar com a mercenária cumplicidade troca-lobby, fornecendo procurações que dão aos outros mais plenos poderes, risos histéricos e urgentes transas “adolescentes”.

“Cachorros” eleva a máxima popular de que “quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos meus cachorros”. Sim, as aulas de equitação são equilibradas no bucolismo e a aproximam da natureza, separada e afastada do conforto padronizado. Um dos tópicos que o filme quer explorar é o fato de que os homens se comportam assim, porque são homens com seus instintos primitivos e de que as mulheres precisam estar à sombra, como objetos de satisfação do prazer e como esposas-troféus. Isso incomoda não pelo viés crítico objetivado, mas por causa do roteiro que não sai de cima de muro e opta por um lugar, arrastando instantes, de acaso novamente ajudado pelos “facilitadores”. Ainda que haja uma esperteza, uma sagacidade, uma perspicácia em traduzir nãos quando querem dizer sims e vice-versa.

Em um primeiro momento, nós podemos achar que Mariana é uma mulher ingênua e vulnerável, de alienante incapacidade cognitiva. Mas depois percebemos que ela é uma “loba em pele de cordeiro”, porque todas as suas ações são calculadas, como a nudez não vulgar indicativa para atiçar e movimentar a própria vida em tédio. Concluindo, “Cachorros” é um filme substituível.

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