Disney em francês

Por Vitor Velloso


Tratar de guerra, ganância, moralismo, ética e tudo aquilo que se podia relacionar no pós Primeira Guerra Mundial, é algo que requer estômago. Albert Dupontel, possui uma visão particular quanto a estes temas. Ele aborda essa caixa de Pandora, que é a humanidade, através de uma lente cinematográfica mais inocente, que vê todos os males, mas que permanece firme quanto a sua convicção.

Após Édouard (Nahuel Pérez Biscayart) salvar a vida de Albert Maillard (Albert Dupontel, diretor do filme), eles se vêem obrigados a cooperarem, buscando sobreviver ao início dos anos 20. Os dois acabando criando um plano de ganhar dinheiro em cima dos memoriais aos soldados, enquanto por tabela, desmascaram o Tenente Pradelle (Laurent Lafitte), que lucra com os caixões das vítimas.

A história é contada de maneira bastante delicada, quase infantil, tentando ser didática a fim de explicar os planos de cada um dos personagens, utilizando-se até mesmo de uma garotinha, Louise (Héloïse Balster), traduzindo aquilo que o protagonista quer dizer, já que ele perdeu o maxilar durante a guerra. O homem desfigurado surge como um ser doce, aos poucos, com seus velhos hábitos de desenho. A trilha sonora acompanha esse tom lúdico da narrativa, buscando uma reação quase performática da imagem. O problema é que todo este arcabouço criado para sustentar essa melodia purista, é saturado. A qualidade da direção de arte, especificamente das máscaras, a maquiagem e o figurino, saltam os olhos, ficamos espantados. Ao mesmo tempo, toda essa saturação de estilo, cansa o espectador. Tudo parece expositivo demais, realizado para uma criança, porém, sua narrativa é demasiadamente complexa ao público infantil. Criando uma dualidade que não combina com a proposta do diretor.

Assim como o retrato super caricato de diversos personagens, que compõem uma falta de originalidade a obra, parecendo um pastiche de Disney infanto juvenil. Nem o protagonista consegue ser carismático, para nos importarmos com ele. Seus dilemas com a família, seu pai, Marcel (Niels Arestrup), e sua irmã, Madeleine (Émilie Dequenne), são desinteressantes e clichês. Cada proposta que o longa tenta impôr em sua estética e narrativa, já foram vistas antes. O capital é cruel, a guerra corrói, a violência contamina, a desigualdade é severa… São conceitos que já foram apresentados, e de forma muito mais profunda, em diversos filmes. E se introduzir isso às crianças, é um argumento válido, bom, é complexo demais para elas. Então, o diretor não sabe exatamente quem pretende atingir.

A linguagem, é de um formalismo padronizado, sempre buscando o simples ato de contar a história, sem nenhuma assinatura de autoria no processo. Porém, alguns abusos de recursos, podem ser apreciados. Diversas gruas, tentam contemplar mais o cenário que foi construído, planos que passam pela janela e piruetas e não sei o que… Tudo sem propósito. Apenas uma ostentação ignorante de tecnologia. E sua montagem se esforça ao máximo para deixar a história mais truncada, menos fluida, com pequenas reviravoltas, um jogo de duvidas aqui e ali. Parece uma mini série escrita, antes do jornal nacional.

E como dito, o ritmo, é muito prejudicado pela falta de foco narrativo. Em diversos momentos, um cansaço tortuoso retornava. Em um projeto onde nada encanta, nem diálogo, nem atuações, nem direção, é fácil perder o interesse. E mesmo que a direção de arte cumpra seu papel, ela não faz milagre.

A criança é o centro da humanização, junto aos traumas de Édouard, logo o maior peso dramático recai sobre ambos, e a química que existe entre os dois é bastante orgânica e palatável, realmente funciona. O mesmo não se pode dizer da relação deles com o Maillard, que acaba sendo de fato o protagonista. A narração hiper expositiva e cansativa, feita por ele, descentraliza o fio narrativo, a fim de priorizá-lo. Pois, existe uma montagem temporal que condiciona ele como o verdadeiro olhar dos acontecimentos. Ainda que o diretor insista com essa abordagem mais infantil, que é ressaltada por uma fala do personagem que ele mesmo interpreta: “Édouard não sabe a diferença entre realidade e sonho”.

O roteiro é baseado no livro de Pierre Lemaitre, então resta saber se esses problemas específicos surgem da adaptação ou do material original. De qualquer forma, é um desperdício imenso de uma narrativa que possui tantas complexidades morais, vê-la sendo jogada no limbo da mediocridade. Apenas uma cena, de fato, interessante que há no filme, não possui tanta relevância narrativa, uma festa, que consegue ser transformada numa dança peculiar através da lente e da montagem, fora isso, não há mais o que dizer.

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